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Brasil pode ter estouro da bolha na agricultura

O Brasil não está imune à crise e corre o risco do estouro de uma bolha na agricultura diante da crise internacional. O alerta é do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz.

Agência Estado |

Em entrevista ao Estado, ele diz que o Brasil precisa se preparar para um cenário em que os créditos estarão escassos por vários meses ainda. Na opinião do economista americano, a crise marca o fim de uma era, e a Europa pode ter problemas tão severos quanto os dos Estados Unidos. Ele pede um plano europeu para a economia e adverte: o pior ainda está por vir.

O prestigiado economista - que entrou em choque com o Tesouro americano no início da década, quando era economista-chefe do Banco Mundial - também explica que a queda das bolsas de ontem foi "um voto de não confiança" no pacote elaborado pela Casa Branca. "Nunca mais nenhum país em desenvolvimento vai dar qualquer credibilidade às recomendações dos Estados Unidos."

Após a entrevista, Stiglitz falou a 1,5 mil pessoas em um teatro de Genebra e disse que Wall Street não fez sua parte e o lobby do setor financeiro até recusou novas leis. "Não precisa ser um ganhador do Prêmio Nobel para saber que havia algo de errado, principalmente no setor imobiliário."

Segundo Stiglitz, um problema fundamental foi a situação da economia americana e a atuação do Federal Reserve, que acabou contribuindo para a crise. "Os Estados Unidos não aprenderam com os erros da América Latina nos anos 70 e 80. Nos anos 70, quando o mundo entrou em crise por causa do preço do petróleo, só uma região conseguiu crescer. Era a América Latina, que continuou tomando empréstimos. Nos anos 80, pagou o preço e levou mais de uma década para se recuperar. Parece que os EUA esqueceram o que ocorreu com as economias latino-americanas nos anos 80." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual será o impacto dessa crise nos países emergentes?

Todos sofrerão. Mas a ironia é que há uma década estávamos vivendo a crise na Ásia e o governo americano acusava os líderes de falta de transparência.Hoje, a falta de transparência nos Estados Unidos é tão grande que ninguém sabe o tamanho do problema, nem nos EUA nem na Europa. A conseqüência direta da crise é que ninguém mais seguirá fórmulas propostas pelos EUA. Outro impacto nos emergentes é um aumento de seus spreads, já que o mercado estará se protegendo de todo o tipo de risco. O resultado é uma queda importante de créditos.

Para o Brasil, diretamente, qual seria a conseqüência?

O Brasil hoje está bem mais preparado que há alguns anos e não sofre crise imobiliária. Mas quem pode sofrer são os investidores na agricultura.Podemos ter uma bolha na agricultura brasileira. Isso porque muitos investidores estrangeiros colocaram seu dinheiro nas commodities nos últimos meses, fugindo do dólar. Com a crise, o primeiro impacto é o fim dos créditos e dos investimentos e as dívidas contraídas no Brasil podem ser um problema no campo. Além disso, tudo indica que os preços das commodities vão cair. A bolha no Brasil pode estar no campo. Ninguém está imune à crise. O Brasil, por mais preparado que esteja, também não.

O pacote americano é solução?

De forma nenhuma. É como uma transfusão de sangue a um paciente com hemorragia interna. O pacote não lida com os buracos no sistema nem com aquela parte da população que não tem como pagar as dívidas. Foi malfeito e já mostrou com a queda das bolsas de hoje (ontem) que não está funcionando. A queda é um voto de não confiança no pacote. O texto original é uma aberração. Em três páginas, o governo pede para gastar US$ 700 bilhões, sem controle. Esse dinheiro equivale a tudo que os países ricos dariam aos países pobres em ajuda em dez anos. Se um governo de um país emergente tivesse proposto algo parecido, as autoridades americanas estariam acusando os governos de corruptos e de falta de transparência.

Em que estado o próximo presidente americano assumirá o país?

Em um verdadeiro caos. O próximo presidente vai herdar um país em caos, no Iraque, na economia global e no mercado americano.

Qual é a solução?

Estimular de novo a economia, ajudar os 3 milhões de americanos que estão sem casa por causa da crise e os outros 2 milhões que ficarão sem casa até o fim do ano. Estamos ajudando os ricos, mas não os pobres e a classe média. A economia mundial vai desacelerar, e é só o começo. Mas precisamos também recapitalizar os bancos, sempre de forma transparente. Precisamos restabelecer a confiança. Mas não com discursos, e sim com ações.

Estamos vendo que os problemas na Europa são tão graves como o dos EUA. O que deve ser feito?

A primeira coisa é implodir o Tratado de Maastricht, que limita os gastos públicos. A Europa precisa de um enorme pacote de ajuda a seu sistema financeiro. Os europeus compraram muitos papéis podres e os americanos precisam agradecer muito isso. Caso contrário, nossa situação seria ainda pior. A crise não acabou, e o pior pode estar por vir ainda. A Europa não pode dar uma solução nacional a cada banco. Um plano conjunto precisa ser feito, ainda que haja um problema de fragmentação nas decisões na Europa.

Como os Estados Unidos chegaram a essa crise?

Há várias explicações. Mas gostaria de destacar pelo menos um dos fatores, a guerra no Iraque, que agravou a situação. Nos últimos anos, vimos abundância de créditos, com liquidez ampla. Mas isso era em parte obra do Tesouro americano, que tomou medidas para pagar pela guerra no Iraque e pelo petróleo mais caro. A guerra foi financiada com um cartão de crédito, e agora a dívida é de todos.

Na história da economia mundial, o que significa essa crise?

É o fim de uma era. Um marco de que as políticas que começaram com Reagan e Thatcher não funcionam. A China hoje está sentada numa reserva de US$ 1,8 trilhão. Nos Estados Unidos, o país soma dívidas de US$ 9 trilhões. A crise ainda marca a diminuição da influência americana no mundo. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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