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Arquitetura é sua própria finalidade, diz Filgueiras Lima

A plasticidade da obra de João Filgueiras Lima, o Lelé, aflora em construções cuja estrutura arquitetônica é tradicionalmente conservadora, como hospitais e passarelas urbanas. Um dos exemplos mais recentes é o hospital Sarah Kubitschek do Rio de Janeiro, edificação na qual se sobressai uma espécie de calota esférica branca com uma flor carnívora se abrindo no alto, e onde funciona o auditório do complexo.

Agência Estado |

Localizado em um terreno de 80 mil m2 nas imediações da Lagoa de Jacarepaguá, o hospital de Lelé fascina com sua estrutura metálica vermelha e os telhados brancos de alumínio, um teto em arco que se abre por um sistema motorizado, permitindo a ventilação natural em toda sua amplidão. Do lado de fora, um espelho dágua que não é só enfeite: além da função paisagística, presta-se à função climática, aumentando a umidade do ar.

Em Brasília, a 40 quilômetros do centro, há um exemplo de como Lelé também trabalha com maestria a obra em pequena escala. Ali, ele projetou uma residência para um amigo que é uma espécie de "Fallingwater do cerrado" (obra-chave do norte-americano Frank Lloyd Wright), uma casa de dois níveis integrada a uma colina e com um espelho dágua interno. A casa foi construída de forma a permitir uma visão quase integral da paisagem local.

O sr. foi homenageado na Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2001, numa época em que se debatia muito a oposição entre ética e estetica na arquitetura. Há de fato um predomínio esteticista hoje em dia?

Tudo tem de ter arte, a arte não pode ser abolida. Com o desenvolvimento tecnológico, presente na arquitetura contemporânea de arquitetos como Renzo Piano e Norman Foster, houve um grande incremento da parte tecnológica da arquitetura. Acredito que hoje o grande desenvolvimento é na área tecnológica. Vemos a fragmentação do saber criando áreas especializadas, e o desafio do arquiteto é integrar esses muitos setores técnicos. A espontaneidade da criação está relacionada com esse novo desafio. Todos os conceitos mudam à medida que a tecnologia evolui. É impossível hoje pensar naquela antiga idéia do arquiteto em atividade solitária, um artista que fazia as coisas inspirado numa certa forma. Isso ficou mais difícil, porque as exigências tecnológicas são muito grandes. Hoje, eu aprendi até a ler o Raio-X. Porque não tenho como projetar sem saber certas coisas, uma sala, o mobiliário, sem saber disso. Por isso, o computador está sempre ali. Há mais de 400 pessoas envolvidas nesse trabalho na Rede Sarah, fora a biomecânica. Um hospital nunca termina, está sempre em mudança. Mas não existe arquitetura sem arte, sem beleza. A tecnologia é um instrumento dessa perspectiva.

Há uma preocupação muito grande hoje com o meio ambiente. O português Álvaro Siza disse que isso foi fundamental na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre.

Não existe o trabalho da arquitetura sem essas preocupações. É fundamental. Isso eu aprendi muito com o Oscar (Niemeyer), a relação com o espaço, o entorno. É o primeiro passo. Oscar é minha grande inspiração. Até hoje ele é. Sempre que vou ao Rio de Janeiro eu vou ao escritório dele. Não só continuo a ver sua obra, como tento absorver o máximo. O discípulo tem de seguir o mestre na medida de sua competência, porque se eu tentasse imitar Oscar sairia no máximo uma caricatura. A idéia de priorizar sistemas naturais começou com meu trabalho no ambiente hospitalar. Você precisa humanizar esses locais. Por exemplo, a luz artificial é um problema. Há 30 anos, não se pensava em sustentabilidade e não havia problema de fornecimento energético. Era uma questão de humanização do projeto. A climatização por meio de ventos foi uma forma de controlar a infecção hospitalar. No projeto que a Rede Sarah executa agora no Rio utilizamos sistemas complementares. Investimos muito em sistemas mecatrônicos e computadorizados para que o ar-condicionado e a ventilação natural funcionassem juntos.

Niemeyer fez 100 anos e continua professando fé em certas convicções políticas. É um comunista convicto. E o sr.?

Eu também. Acredito no socialismo, continuo acreditando em um mundo socialista. Não como uma prática, mas como doutrina não praticada. Todos ansiamos pela liberdade. Não vejo outra saída.

Sempre se diz que obras como o edifício da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre; o Masp, em São Paulo; o MAM, do Rio de Janeiro; o Memorial da América Latina, em São Paulo; são coisas que acontecem muito raramente na arquitetura brasileira, são "acidentes" arquitetônicos.

De fato, nós investimos pouco nesse tipo de obra. O próprio Siza tem obras de grande porte na Europa, obras nas quais o Estado investe porque julga importante investir. Aqui, até os nossos hospitais nós temos de fazê-los econômicos porque senão não conseguiríamos construí-los. As obras que surgem são esparsas e pontuais, como a Cidade da Música, na qual o Rio investe R$ 600 milhões. Mas é uma obra de Christian de Portzamparc, é um arquiteto consagrado. É preciso que o Estado invista não tanto parar criar marcos arquitetônicos na paisagem, mas pelo próprio valor intrínseco da obra. Obras como a de Oscar Niemeyer marcam a cultura de um povo, marcam a nossa cultura. É um trabalho que não pode ter restrições demais, porque senão acaba não sendo feito ou vai ser feito de forma inadequada. A Europa exporta cultura porque faz investimentos maciços em sua arquitetura. Aqui, esses edifícios acabam sendo avis raras que você vai pinçando aqui e ali. Não é um investimento sério como se vê na Europa. A própria Fundação Guggenheim investe em arquitetura como cultura, e nem sempre é uma edificação para guardar um acervo precioso. A própria arquitetura é que é preciosa. Há muitos casos em que nem existe um acervo, como é o caso do museu Guggenheim de Bilbao, que foi fundamental para o desenvolvimento daquele entorno e daquela cidade.

Há casos, entretanto, em que há evidentes exageros, investimentos em uma arquitetura faraônica e que é um pastiche, como é o caso de Dubai.

Evidentemente é porque eles têm muito dinheiro para gastar. Eu diria que esses edifícios são proezas arquitetônicas. Há proezas bonitas e feias. Existem arquitetos muito importantes realizando suas proezas aqui e lá. É preciso separar o joio do trigo. O Guggenheim de Bilbao é uma proeza feita pelo Gehry, que tem uma obra arquitetônica que vai ficar. Há diversos exemplos, como a Ópera de Sydney, que foi muito criticada e hoje é um símbolo da Austrália. Nós temos tecnologia no Brasil para realizar proezas.

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