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A crise vai ficar conosco um bom tempo

O sistema financeiro mundial está em plena crise sistêmica, que poderia ser amenizada se o os EUA adotassem um programa semelhante ao Proer, instituído no Brasil no governo Fernando Henrique Cardoso. A afirmação foi feita ontem pelo economista Edmar Bacha, um dos criadores do Plano Real e hoje consultor sênior do Banco Itaú BBA, em entrevista à Agência Estado.

Agência Estado |

Para Bacha, é possível que o mundo entre em recessão em 2009 e perdure até 2010.

Qual é sua avaliação da crise?

Essa é uma crise financeira inusitada porque o que está em xeque é todo um sistema financeiro novo, que foi desenvolvido nos últimos 30 anos, diferente do tradicional, baseado em bancos comerciais. Surgiram bancos de investimento para gerar ativos securitizados e distribuir essa securitização com ativos de complexidade crescente. A implosão do mercado imobiliário revelou que esse sistema financeiro tinha uma fragilidade enorme, que derivava da opacidade dos seus produtos, uma regulação muito fraca. Essas entidades tinham alavancagens diversamente maiores que os bancos comerciais e não tinham um regulador nem um emprestador de última instância. O Fed não tinha responsabilidade direta sobre os brokers dealers nos EUA.

Estamos perto de crise sistêmica?

A crise sistêmica está aí. É uma perda generalizada de confiança em instrumentos e instituições financeiras que geram corridas. Essas corridas não são as tradicionais corridas bancárias, mas são corridas de mercados que subitamente se congelam. O ouro subiu 11%. A crise sistêmica é isso aí. O governo dos EUA fez um aporte de US$ 85 bilhões na AIG e mesmo assim o mercado entrou em pânico ontem. Não critico o governo americano pela forma como está atuando. Apesar de todo o dinheiro que entrou na AIG, o mercado não está sabendo como será a distribuição das perdas. Quem emprestou dinheiro à AIG vai levar o dinheiro de volta? Se por acaso o AIG quebrar, o primeiro credor é o governo americano. Como há uma crise de confiança, uma crise sistêmica, o mercado fica se perguntando quem será o próximo.

Qual a tendência no curto prazo?

Isso é absolutamente imprevisível. O que vemos é uma corrida, não sabemos se isto está restrito a instituições bancárias americanas. Não sabemos se isso vai se propagar para a Europa ou não. Há perguntas que ficam no ar.

O que poderia reduzir a intensidade da crise?

Uma atitude mais decisiva do governo americano do tipo que o Brasil adotou com o Proer e Proes - "venham todos a mim, porque onde houver problema eu incorporo e depois resolvo". O Brasil pôde fazer isso porque o custo era razoável. No caso da crise americana, estamos falando de muitos trilhões de dólares, algo que jamais foi imaginado que o governo dos EUA poderia incorporar.

Não é isso que o governo dos EUA fez com Fannie Mae, Freddie Mac e AIG?

É, mas os valores que o governo dos EUA colocou em termos de dinheiro e a maneira como colocou não foram suficientes. Não geraram tranqüilidade. E se depois de fazer uma intervenção para assumir dívidas trilionárias ocorrer uma crise de confiança nos papéis do governo americano? Já pensou que isso poderia ocorrer? Todo mundo tentando vender papéis do governo dos EUA? Os chineses tentando vender US$ 2 trilhões desses títulos?

Quando essa crise deve terminar?

Essa crise vai ficar conosco por um bom tempo. Vamos atravessar este ano e 2009 em crise, mesmo que o mercado financeiro fique relativamente tranqüilo a crise vai chegar tranqüilamente até 2010.

Como a crise poderia afetar a economia real do mundo e do Brasil?

Essa crise vai ser altamente recessiva. O mundo terá que operar durante um bom tempo com volume de crédito extremamente contraído.

Como fica o Brasil?

O Brasil está melhor do que no passado e deve crescer 3% em 2009. Mas a crise chegou na Coréia do Sul e à Rússia, países que têm reservas cambiais muito fortes. O dólar ficou muito perto de R$ 1,90. Precisamos colocar as barbas de molho, vestir as sandálias da humildade, parar de dizer que a economia é robusta e que somos invencíveis.

Como proteger mais a economia brasileira?

Preservar a confiança e evitar esse espírito que o Mário Henrique Simonsen chamaria de Keynesianismo de galinheiro, que é o de achar que se pode compensar uma contração de crédito privado abrindo as burras do Tesouro e do Banco do Brasil. Isso é a receita para o desastre.

O Copom pode baixar os juros em 2009?

Seria uma medida, mas não para estimular o nível de atividade. Isso seria um erro.

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