Selic permaneceu abaixo dos 10% por exatos 364 dias; analistas aprovam alta de 0,75 ponto anunciada hoje pelo Copom

Há exatos 364 dias, o Brasil comemorava a marca histórica da taxa básica de juros (Selic) abaixo dos 10%. Na reunião do dia 10 de junho de 2009, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central anunciava o corte de 1 ponto percentual na taxa, que baixou a 9,25% pela primeira vez na história. Praticamente um ano depois, no entanto, os juros no Brasil voltaram a casa dos dois dígitos, com o anúncio desta quarta-feira, de nova alta de 0,75 ponto percentual, levanto a Selic a 10,25% ao ano.

A trajetória dos juros

Confira o movimento da taxa Selic desde o agravamento da crise mundial, em setembro de 2008
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Fonte: Banco Central

Durou pouco o “sonho” da taxa de juros de países desenvolvidos por aqui. No ano passado, a Selic entrou em uma trajetória de queda por conta da crise internacional. A economia precisava de estímulos e o corte nos juros fez parte do pacote de socorro. A Selic, então, caiu de 13,75% em setembro de 2008 para 8,75% em julho de 2009, patamar em que permaneceu até a reunião de abril deste ano, quando voltou a ser elevada em 0,5 ponto percentual pelo Copom.

A primeira alta em 2010 mostrava que o cenário era outro. Recuperada da crise mundial, a economia brasileira se vê agora diante de um forte ritmo de crescimento e consumo. Dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o PIB do primeiro trimestre cresceu 9%, a maior alta frente a igual período do ano anterior desde 1996. Para conter o avanço da inflação, que fechou o acumulado de 12 meses em maio a 5,22% - acima do centro da meta de 4,5% - a receita da vez remete à nova alta dos juros.

“No longo prazo, temos uma trajetória de redução gradativa da taxa Selic, mas, por uma série de fatores, inclusive institucionais, acabamos tendo uma barreira para um mínimo de juros”, diz a economista Thais Marzola, sócia da consultoria Rosenberg & Associados.

Segundo ela, no curto prazo, a Selic não voltará à casa de um dígito. “Teremos um surto de investimento nos próximos anos, por conta da Copa, das Olimpíadas e, principalmente, do pré-sal. Não voltaremos abaixo de 10% antes de cinco anos.” Estes eventos devem estimular o crescimento da economia, novas contratações e o consumo, gerando mais pressão inflacionária nos próximos anos.

De acordo com analistas consultados pelo iG , a decisão de elevar a Selic em 0,75 ponto foi acertada. “O cenário de expansão de atividade, somado à piora do quadro inflacionário, faz com que a taxa volte aos dois dígitos de forma justificável”, afirma Rafael Bacciotti, analista da Tendências Consultoria, que projeta a Selic em 12,5% no fim do ano.

“Devemos ter mais duas reuniões do Copom com alta de 0,75 ponto e o último encontro com elevação de 0,5 ponto para fechar o ciclo”, completa Bacciotti. Ele pontua, por outro lado, que a partir de 2012, os juros retomam a trajetória de queda, voltando, naquele ano, a 10,50%.

Para Thais Marzola, o Copom deve elevar a Selic em 0,75 ponto nas duas próximas reuniões, com os juros fechando o ano em 11,75%.

“Caso um evento extremo não ocorra e o mundo siga crescendo, ainda que em um ritmo menor por conta das consequências já instaladas da crise, essa elevação nos juros cumprirá o papel de moderar a demanda e conter as expectativas inflacionárias, levando-as de volta para o centro da meta de inflação ao longo dos próximos trimestres”, concluiu o Bradesco, em relatório.

Na avaliação da LCA Consultores, a curva dos juros pressupõe que a crise fiscal na Europa não se propagará a ponto de colocar em risco a economia global e que a atividade doméstica continuará com sinais de moderação na margem. Em relatório, a consultoria pontuou que a inflação corrente ficará mais bem-comportada e a cotação cambial continuará a oscilar em torno de R$ 1,80 nos próximos meses.

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