O Senado dos Estados Unidos votará hoje uma versão modificada do pacote de resgate do sistema financeiro proposto pelo governo George W. Bush.

O original foi rejeitado segunda-feira pela Câmara dos Representantes, o que levou pânico aos mercados financeiros do mundo todo.

O novo plano inclui uma cláusula sobre reduções tributárias e eleva o limite de depósitos garantidos pela Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC, na sigla em inglês) de US$ 100 mil para US$ 250 mil. A decisão foi tomada pelos líderes da Casa após uma forte pressão do Executivo e dos dois candidatos à Presidência, os senadores democrata Barack Obama e republicano John McCain. Ambos informaram que viajarão a Washington para a votação.

Um assessor da bancada do Partido Democrata disse que a sessão deverá ocorrer depois do pôr-do-sol, quando termina o ano-novo judaico. Não é comum que o Senado vote um projeto antes que a Câmara. A expectativa é de que os senadores dêem o sinal verde para o plano, que depois deverá ser novamente votado pelos deputados.

Obama e McCain telefonaram ontem para Bush para discutir a crise financeira. Eles queriam justamente incluir no pacote um aumento no limite do seguro federal para contas correntes. A medida é vista como mais um gesto de proteção aos contribuintes, que se opõem ao pacote, e um agrado para os congressistas republicanos conservadores, que defendiam essa provisão.

"Eu também estou revoltado com a irresponsabilidade de Wall Street e de Washington, que criou a crise atual; mas não fazer nada diante da tempestade que está se formando em nossos mercados financeiros seria catastrófico para nossa economia e nossas famílias", disse Obama. McCain também sugeriu a Bush a criação de um fundo de US$ 250 bilhões para estabilizar instituições financeiras e pediu que o Tesouro exerça sua habilidade de comprar até US$ 1 trilhão em hipotecas.

O plano permite ao Tesouro americano usar até US$ 700 bilhões para comprar dos bancos títulos podres - lastreados em hipotecas inadimplentes, pouco líquidos e difíceis de avaliar - e, com isso, descongelar o mercado de crédito. Mas, a pouco mais de um mês da eleição, muitos congressistas consideraram que votar a favor do pacote era suicídio político.

O resgate dos bancos é altamente impopular entre os eleitores, que o consideram "socorro para banqueiros". Mais de dois terços dos republicanos votaram contra a lei. O líder do Partido Republicano na Câmara, John Boehner, informou, por meio de seu porta-voz, que apóia a versão revisada do pacote. "Ele foi consultado a respeito e aprovou (o novo plano)", disse Kevin Smith.

O presidente americano voltou a fazer um pronunciamento ontem na TV - é o sétimo dia consecutivo em que foi a público defender o pacote. "Nós estamos em uma situação de urgência e as conseqüências estão ficando piores a cada dia", disse Bush. "Se nossa nação continuar nesse caminho, o prejuízo econômico será grande e duradouro."

Ontem, a Câmara teve de restringir o volume de e-mails enviados por eleitores a seu website, porque o sistema estava caindo com o enorme número de mensagens de protesto contra o pacote de resgate. "Estou recebendo centenas de e-mails - a metade dos eleitores diz não para o pacote, a outra metade diz nem pensar", disse o congressista democrata Jim Moran, que votou a favor. "Mas nós perdemos mais de US$ 1 trilhão com a queda da bolsa na segunda-feira, não dá para ficar brincando."

A recuperação do mercado ontem, ironicamente, deu força aos republicanos que votaram contra a medida e acham que o pacote não é necessário. Mas o mercado de crédito continua paralisado - a taxa Libor de empréstimo entre bancos saiu de 2,56875% na segunda-feira para o recorde de 6,875% ontem.

"Na minha região, empresas não conseguem tomar empréstimos e municípios não conseguem emitir títulos", disse o senador Mitch McConnell. "Inação não é uma opção - nós vamos aprovar essa lei nesta semana", garantiu. Mas grande parte dos congressistas republicanos - e democratas de esquerda - estava longe de estar convencida da necessidade do plano. "Muitos americanos ficaram profundamente ofendidos com a idéia que seus impostos iriam ser usados pelo ex-presidente da Goldman Sachs (Henry Paulson) para ajudar seus amigos em Wall Street", disse Newt Gingrich, ex-presidente da Câmara.

Durante o dia, Obama argumentou que a inclusão do aumento do seguro de contas correntes no projeto poderia ajudar na aprovação da lei. O limite expandido para para US$ 250 mil ajudaria pequenas empresas que têm dinheiro nos bancos e estão inseguras. "Ajudaria a restituir confiança em nosso sistema financeiro", disse Obama. A medida é apoiada por Sheila Bair, presidente do FDIC, órgão que oferece o seguro.

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