Tamanho do texto

BRASÍLIA - O chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Altamir Lopes, voltou hoje a argumentar que mesmo com a trajetória de deterioração, a conta corrente continua sustentável. Ele negou que o governo Lula vá entregar as contas externas descontroladas a seu sucessor, além de sustentar que o balanço de pagamentos tem nova estrutura, apoiada em dívida externa menor, reservas mais elevadas e capital externo de longo prazo.

Segundo Lopes, no passado os déficits eram construídos, basicamente, por uma pesada carga de juros sobre a dívida externa mais elevada. Agora, a dívida externa não só caiu, como o país passou a ser credor externo (US$ 19,9 bilhões em junho), por ter reservas em patamar acima do endividamento.

A conta líquida de juros externos para 2008 é projetada em US$ 4,9 bilhões, inferior aos US$ 7,3 bilhões de 2007, por exemplo. O juro deixou de ser o grande problema, comentou o executivo do BC, e está mais fácil o ajuste das transações correntes.

Além das reservas na casa dos US$ 200 bilhões, ele cita entre os fatores positivos a mudança na forma de financiamento, lembrando que os juros altos atraíam grandes volumes de capital volátil de curto prazo. Após as privatizações ao final da década de 1990, Lopes lembra que o Brasil atrai volumes maiores de investimentos externos diretos (IED) e empréstimos de médio e longo prazos para o setor privado.

O endividamento de empresas e entidades instaladas no país tem prazos mais alongados e taxas de rolagem acima de 100%. Segundo o BC, em julho até hoje a média de refinanciamento de lançamento de papéis e empréstimos estava em 199%, com um índice de 122% para os títulos de dívida e de 364% para os contratos de financiamento.

O IED, cujos recursos vão para o setor produtivo, somou US$ 16,702 bilhões no primeiro semestre e US$ 30,4 bilhões em 12 meses até junho. Neste mês até hoje já ingressaram US$ 2,9 bilhões, com expectativa de fechar o mês em US$ 3 bilhões. Portanto, com chances de chegar à meta de US$ 35 bilhões ao fim do ano, segundo Lopes.

Esse montante que entra no país via IED deve ser suficiente para cobrir o déficit da conta de transações correntes, que fechou o semestre em US$ 17,4 bilhões, o pior patamar da história.

O buraco na conta corrente foi puxado pelas remessas de lucros e dividendos, também recordes, em US$ 18,99 bilhões no semestre. As remessas surpreenderam o BC no mês passado, quando Lopes já contava com uma acomodação.

Até o dia 23 de junho, as saídas nessa conta somavam US$ 1,26 bilhão e o BC previa US$ 1,6 bilhão para todo o mês. Mas houve uma aceleração nos últimos dias do mês passado e o total em junho atingiu US$ 3,396 bilhões. Com isso, o déficit em conta corrente do mês passado ultrapassou as expectativas de Lopes (que esperava US$ 1,2 bilhão), fechando em US$ 2,596 bilhões negativos.

O executivo do BC justifica que as remessas advém da boa situação econômica do país. Ele citou como exemplo o fato de as remessas maiores terem partido dos setores financeiro, automotivo e metalúrgico, que têm registrado bons resultados no país e prejuízos em seus países originais. Ele também espera que o avanço das importações seja mais moderado a médio prazo, o que deve melhorar o superávit comercial.

(Azelma Rodrigues | Valor Online)