As chances de um raio ter causado o apagão são mínimas, segundo especialistas do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Embora houvesse uma tempestade passando sobre a região de Itaberá no momento do blecaute - por volta das 22h15 de terça-feira -, nenhuma descarga elétrica foi detectada próxima às linhas de transmissão (veja mapa nesta página).

Além disso, mesmo que um raio tivesse atingido diretamente a rede, a intensidade das descargas registradas (abaixo de 20 mil ampères) não era suficiente para causar nenhum problema nas linhas de energia que passam pelo local, com tensões de 600 mil e 750 mil volts.

"Para desligar uma linha dessas você precisaria de uma descarga de, no mínimo, 80 mil ampères", disse ao Estado o coordenador do Elat, Osmar Pinto Júnior. "E o raio teria de cair exatamente sobre a linha."
A avaliação é baseada numa rede de sensores que registra e mede diretamente todas as descargas elétricas que incidem sobre o Centro-Sul do País, com alto grau de confiabilidade. Segundo um comunicado divulgado ontem pelo grupo, as descargas mais próximas do sistema elétrico registradas entre as 22h05 e 22h20 de terça-feira estavam a cerca de 30 quilômetros da subestação de Itaberá, 10 km das linhas de 750 kV e 2 km, das linhas de 600 kV.

A única possibilidade, segundo Osmar, é que um raio de intensidade muito baixa (não detectado pelo sistema) tenha atingido um ponto específico da rede em que o isolamento das linhas esteja danificado.

Segundo ele, é importante que a verdadeira causa do blecaute seja desvendada, para não correr o risco de "prender o bandido errado e deixar o verdadeiro culpado livre, para cometer novos crimes".

Ele lembra que, no apagão de 1999, a causa também foi atribuída inicialmente a um raio. Como não havia uma rede de monitoramento estabelecida na época, demorou dois meses para provar o contrário.

TEMPO NORMAL
As condições meteorológicas sobre o município de Itaberá eram normais no momento do apagão, segundo meteorologistas ouvidos pelo Estado.

Imagens de satélite e radar mostram que havia nuvens sobre a região com potencial para produzir tempestades com chuva forte, ventos e raios, mas nada fora dos padrões para esta época do ano.

O Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru registrou a ocorrência de "chuvas fortes a muito fortes" - de 50 a 100 milímetros por hora - sobre a região no momento do apagão.

"Geralmente, chuvas com essa intensidade são acompanhadas de ventos fortes e descargas elétricas", disse a meteorologista Zildene Pedrosa Emídio, do IPMet.

Imagens de satélite captadas pelo Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe mostram nuvens muito frias passando pela região no momento do blecaute. A imagem do momento do blecaute pode ser vista no site www.estadao.com.br/e/c3.

Segundo o meteorologista Luiz Kondraski, do CPTEC, a baixa temperatura representa nuvens de grande elevação (até 12 km de altitude), com potencial para provocar pancadas de chuva, descargas elétricas e ventos fortes.

"Durante a manhã (de terça-feira) uma frente fria vinda da Argentina e do Paraguai chegou ao Rio grande do Sul e ao Paraná. Com o encontro dessa corrente com a massa de ar quente que estava no sul do Brasil, as nuvens foram formadas", explica. "Os ventos, em algumas cidades do Sul e Sudeste, chegaram a 100 km/h."
Nenhum dos meteorologistas ouvidos pela reportagem, porém, consideraram essas condições extremas. "Foi uma chuva normal", resumiu Mamedes Luiz Melo, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Priscila Monteiro, também do Inmet, disse que às 18h de terça foi enviado à Defesa Civil um comunicado sobre a possibilidade de chuvas fortes em Foz do Iguaçu, nas proximidades da usina de Itaipu. "Mas não existiu nenhuma condição meteorológica intensa ou anormal. Tivemos rajadas de vento, mas nenhum tornado, por exemplo. Os raios acumulados em Foz de Iguaçu estavam totalmente normais ao período", reforça ela.

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