A perspectiva de moderada evolução dos preços de commodities até o final de 2011, causada pela tendência de leve aquecimento da economia mundial no período, deve colaborar para que o Banco Central não precise adotar um ciclo de aumento de juros intenso para conter a alta de inflação, tanto no horizonte de 12 meses quanto para o próximo ano. A avaliação é de economistas ouvidos pela Agência Estado.

A perspectiva de moderada evolução dos preços de commodities até o final de 2011, causada pela tendência de leve aquecimento da economia mundial no período, deve colaborar para que o Banco Central não precise adotar um ciclo de aumento de juros intenso para conter a alta de inflação, tanto no horizonte de 12 meses quanto para o próximo ano. A avaliação é de economistas ouvidos pela Agência Estado. "O Copom deve promover seis aumentos de 0,5 ponto porcentual neste ano, começando na próxima quarta-feira, e a decisão vai levar em consideração a perspectiva para o desempenho das commodities até o início de 2012", avalia o sócio da consultoria Tendências Juan Jensen. A empresa estima que a Selic deve chegar ao final deste ano em 11,75%. No início de 2008, o boom das commodities foi um dos principais elementos que elevaram, de forma expressiva, os índices de preços no Brasil. A alta levou o Copom a iniciar um ciclo de aperto monetário em abril daquele ano - quando a Selic subiu para 11,75%. O pico ocorreu alguns meses depois, em 10 de setembro, quando a taxa atingiu 13,75%. "O atual aumento dos preços de commodities não está sustentado sobre a expansão da economia global, mas sobre o avanço da China e da liquidez internacional", comenta o ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore. Ele espera que o BC eleve a Selic em 0,75 ponto porcentual nos encontros de abril, junho, julho e setembro. Em função da perspectiva de expansão das economias centrais, os analistas ponderam que as commodities devem registrar incremento gradual de preços e, somente a partir de 2012, passar a um ritmo mais veloz de alta. Especialistas entrevistados esperam que a economia mundial cresça cerca de 3,5% neste ano e 4% em 2011. Para a China, a previsão é de 9,5%, em média, nos próximos dois anos; para a zona do euro, a previsão é de algo perto de 1% em 2010 e, no máximo, de 1,9% em 2011; para o Japão, a previsão é de até 2,2% neste ano e até 2% em 2011; e para os EUA, a perspectiva é de cerca de 2,8% neste ano e de 2,5% em 2011. Como há correlação muito elevada entre o barril do petróleo e as commodities em geral, analistas avaliam a tendência do combustível como uma espécie de proxy dos outros produtos com preços globais. Os economistas dos bancos BNP Paribas e WestLB e das consultorias Tendências e LCA estimam que o preço médio barril do WTI deve variar de US$ 79,60 a US$ 82,30 neste ano e oscilar entre US$ 76,50 e US$ 90,00 em 2011. "A melhora gradual da economia mundial não deve colaborar para que as commodities registrem vigorosa expansão até o final do próximo ano", comentou o analista sênior para a América Latina do BNP Paribas, Diego Donadio. O banco francês estima que a alta de juros neste ano será de 2,5 pontos porcentuais, com elevação de 0,75 ponto nesta semana. <b>Demanda doméstica preocupa</b> Sem o temor de que as commodities pressionem a inflação com força nos próximos 20 meses, especialistas destacam que a demanda doméstica permanecerá como o fator preponderante para o comportamento dos preços. Nesse contexto, a elevação da Selic ao longo do ano não deve ser robusta e pode até ser semelhante à adotada em 2008. Na opinião do estrategista-chefe do WestLB, Roberto Padovani, o aumento total dos juros será de dois pontos porcentuais, distribuídos em quatro altas de 0,5 ponto cada. "Com a estabilidade da economia, a política monetária fica mais eficiente e requer uma magnitude menor do que em outros ciclos restritivos do passado para desacelerar o nível de atividade", afirma. Além disso, Padovani espera que o BC adote outros instrumentos de política monetária, como o aumento dos depósitos compulsórios, o que ajudaria, inclusive, a reduzir a alavancagem de instituições financeiras e empresas. O economista da LCA Fábio Romão lembra que o retorno para o BC de R$ 71 bilhões, em março e abril, que estavam à disposição dos bancos comerciais, equivale a uma alta de 1,5 ponto porcentual na Selic. A LCA espera que o Copom eleve os juros em 2,5 pontos porcentuais, com duas altas de 0,75 ponto porcentual cada, uma na próxima quarta-feira e a outra em junho, e mais duas de 0,5 ponto porcentual, em julho e setembro. "A alta de compulsórios e a elevação da Selic devem representar, no total, uma elevação da Selic equivalente a quatro pontos porcentuais, que é bastante expressivo", avalia Romão. Na avaliação do economista, o câmbio apreciado será outro componente que vai ajudar o Banco Central a não elevar a Selic de forma muito vigorosa neste ano. O robusto ingresso de capitais no País ajudará, segundo ele, a manter a cotação do real valorizada ante o dólar. A LCA estima que os investimentos estrangeiros diretos, por exemplo, devem trazer ao território nacional US$ 40 bilhões em 2010 e o mesmo montante em 2011. O grande diferencial de juros entre Brasil e países desenvolvidos é outro fator que deve elevar a entrada de recursos estrangeiros. As taxas estão negativas nos EUA, Reino Unido, Japão e zona do euro e têm boas chances de permanecer neste patamar até o final do ano. No Brasil, o juro real está em 6,23% pelo critério ex-ante e deve chegar a 7,2% em dezembro, de acordo com a LCA. Nesse contexto, a consultoria estima que o câmbio deve atingir a média de R$ 1,75 neste ano e R$ 1,82 no próximo.

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