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ANÁLISE-Nacionalismo ameaça interesses do país na América do Sul

Por Raymond Colitt BRASÍLIA (Reuters) - O governo Lula durante anos esperou que o surgimento de uma nova geração de líderes de esquerda na América do Sul ajudaria o Brasil a se tornar a potência regional dominante, desafiando a influência dos EUA.

Reuters |

Mas o fato é que os interesses político-econômicos do próprio Brasil na América do Sul estão sendo desafiados por uma onda de nacionalismo nos países vizinhos.

A ameaça equatoriana de não pagar uma dívida com o BNDES, e o fato de Quito já ter expulsado a empreiteira Odebrecht, por causa de uma suposta violação contratual, provocam ampla preocupação entre empresários e diplomatas brasileiros.

"É muito preocupante, há uma visão crescentemente negativa a respeito do Brasil em vários países", disse Roberto Abdenur, ex-embaixador brasileiro em Quito. "Esta idéia de uma América do Sul de esquerda e unida foi uma ilusão, e o Brasil erroneamente a fomentou."

O governo paraguaio quer renegociar dívidas da hidrelétrica binacional de Itaipu, e além disso agricultores do país protestam contra fazendeiros brasileiros, ameaçando expulsá-los do Paraguai.

A Petrobras foi forçada a aceitar mudanças contratuais no Equador, na Bolívia e na Venezuela, e também a vender duas refinarias abaixo do valor de mercado quando a Bolívia nacionalizou o setor do gás, em maio de 2006.

As empresas brasileiras investem pesadamente na América do Sul desde a abertura econômica que se seguiu ao fim dos regimes militares na região, na década de 1980.

Desde que tomou posse, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chamado de "meu irmão maior" pelo colega boliviano Evo Morales, financiou estradas e pontes e fez concessões comerciais a países vizinhos, em nome da integração regional. Agora, está reconsiderando.

"Precisamos repensar. Se tivermos de ser mais cautelosos, isso em si irá desacelerar a integração", disse o chanceler Celso Amorim à Reuters.

RESSENTIMENTO E DESCONFIANÇA

Sendo uma potência regional com crescente influência global e um importante investidor na região, o Brasil costuma ser visto com ressentimento por seus vizinhos menores.

O país tem um superávit comercial de 13 bilhões de dólares com a região. No caso da Argentina, o desequilíbrio é uma frequente fonte de tensão política. O orçamento total da Bolívia é praticamente igual aos investimentos anuais da Petrobras.

"Quando o Brasil cresce demais, ele se torna uma ameaça - essa é uma atitude disseminada nos Andes e além", disse José Flávio Saraiva, professor de Relações Internacionais na Universidade de Brasília. "Com tanta desconfiança, é difícil integrar."

Presidentes de esquerda, como Morales, Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equador), estão sob pressão para entregar resultados à população mais pobre que os elegeu, e impor um controle mais rígido sobre os recursos naturais é uma política popular.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que costuma rivalizar com Lula pela liderança na região, ajudou a Bolívia a nacionalizar o gás, em detrimento da Petrobras, e estimula Correa e Lugo a desafiarem o Brasil, segundo alguns analistas.

"Nós nos tornamos mais vulneráveis ao alardearmos nossas ambições de liderança, e Chávez explorou isso", disse Abdenur.

Logo depois de o Equador expulsar a Odebrecht, a Venezuela aprovou uma lei tributária que taxa a empreiteira em 282 milhões de dólares adicionais.

O governo Lula dificilmente vai desistir da integração econômica, que na opinião dele abre portas para negócios e dá ao país maior influência nas negociações comerciais globais. Mas o governo acha que seus vizinhos estão cometendo um erro.

"Precisamos de uma mistura de paciência e resolução", disse Amorim. "Acho que eles podem estar escolhendo o alvo errado, porque na atual situação o Brasil é um dos poucos países que tem tentado ajudar."

Críticos dizem que o governo deveria ser mais duro. "Não precisamos queimar pontes - eles são nossos vizinhos. Mas vamos colocar a integração no freezer até que eles estejam preparados, e façamos negócios numa região menos volátil", disse Saraiva.

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