Por Daniela Machado SÃO PAULO (Reuters) - O Banco Central iniciou esta semana um esperado ciclo de cortes do juro, procurando tirar o atraso em relação às taxas já praticadas no mercado futuro, mas não conseguiu brecar a expectativa de que outras reduções significativas serão necessárias.

Para analistas, embora a valorização do dólar exija atenção com a inflação, a atividade econômica pode ainda não ter sentido todo o baque da crise global --exigindo mais ações do governo.

"Acreditamos que os mercados vão mudar sua expectativa de distribuição dos cortes para movimentos maiores nas próximas reuniões, entre 0,75 e 1,0 ponto percentual", avaliou o UBS.

"Considerando improvável uma interrupção antecipada do ciclo de afrouxamento, a conclusão será uma mudança de estimativa para um total maior de cortes."

O banco aguarda a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que colocou a Selic em 12,75 por cento ao ano, mas já adianta em relatório que o ciclo total deve ser de 3 pontos --e não mais de 2,5 pontos.

Essa avaliação se dá apesar do recado do BC de que já realizou "de imediato parte relevante" do processo de cortes do juro e da dissidência de três membros do Copom, que preferiam redução mais branda de 0,75 ponto percentual.

"A intenção do BC com o comunicado, dizendo que parte relevante do movimento já tinha sido feito, e o próprio placar era segurar um pouco o mercado e o mercado não está se deixando segurar", citou Vladimir Caramaschi, economista-chefe do Crédit Agricole Brasil.

"Isso sugere duas coisas: que o mercado não está botando muita fé que não vai ter mais cortes relevantes do juro e que o mercado vê a inflação comportada."

Na BM&F Bovespa, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) recuaram com gosto.

DE OLHO NO CÂMBIO

Analistas destacaram que a inflação comportada das últimas leituras contribuiu para que o BC cortasse agressivamente a Selic, mas não descartam algum repique por conta do dólar.

"Acho que o dólar continua sendo motivo de incerteza e, até por isso, eu esperava que o BC seria um pouco mais cauteloso. É um pouco cedo para imaginar que o repasse vai ser inexistente", acrescentou Caramaschi.

Mas a atividade fraca não poderia compensar a alta recente do dólar? Para o economista, só será possível ter uma análise melhor do desaquecimento nos próximos meses.

"Daqui até março (mês da próxima reunião do Copom) vamos ter percepção muito mais clara. A própria desaceleração da indústria, não sabemos até que ponto é um ciclo de estoques ou uma desaceleração mais consistente por conta de demanda menor mesmo."

Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central, concorda que o câmbio deve ser acompanhado de perto.

"O BC estava 'atrás da curva' e agora está tentando ficar um pouco menos. O cenário é de atividade em queda e inflação sob controle, mas tem um 'senão' que é o dólar", disse Thadeu de Freitas, atual economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio.

"A atividade está fraca e podemos chegar com Selic a 10 por cento no fim do ano se os mercados se normalizarem e o dólar voltar para algo perto de 2,10 reais... Mas a hipótese mais provável é que os mercados não se normalizem, e daí chegamos ao fim do ano com Selic a 11 por cento."

Também para ele é a partir de março que os sinais da economia poderão ficar mais claros. "Estamos num ciclo de desova de estoques. A partir de março é que vamos ver se vai ter ou não recomposição e daí o dólar pode pesar (sobre a inflação)."

(Com reportagem adicional de Ana Nicolaci da Costa; Edição de Alexandre Caverni)

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