O dólar vai continuar volátil, é um fenômeno mundial. Está sendo pressionado pela elevada liquidez mundial e pelas incertezas sobre a retomada do crescimento americano.

Diagnóstico irreparável do presidente do BC, Henrique Meirelles, em entrevista ao correspondente do Estado em Genebra, Jamil Chade. "Como todo mundo, temos de conviver com isso nos próximos meses. Espero que essa volatilidade se restrinja ao dólar."
No Brasil, estamos crescendo mais, 7% previstos para o terceiro trimestre, o que atrai valores crescentes de investimentos. Há dólares provocando um problema cambial. A atenuante é que temos condições de continuar comprando o excesso de dólares, aumentando as reservas. É isso que estão fazendo os países do Leste Asiático. Estão sendo obrigados a estocar dólares para evitar a valorização excessiva de suas moedas.

E não é só a China, não. "Estamos formando uma grande reserva de dólares", afirma o ministro das Finanças da Tailândia, Korn Chatikavanij.

GOVERNO ATENTO
Mas sem muitas saídas. O dólar no mercado mundial vai continuar se desvalorizando enquanto aqueles dois fatores - liquidez e incerteza quanto aos Estados Unidos - não forem afastados. Enquanto a economia americana e europeia vacilam, a nossa deve ter crescido 7% no último trimestre. Vai ficar em mais de 1% este ano.

Na Europa, nem se fala. Os investimentos continuarão entrando. O BC e o Tesouro estão agindo como podem, mas, enquanto nada mudar lá fora e tudo continuar igual aqui, com eles menos e nós mais, o dólar vai continuar subindo no exterior e no Brasil. Recua lá e recua ainda mais aqui.

Temos que viver com isso até que se altere o cenário econômico mundial. Quando? Lá pelo segundo semestre, afirmam alguns economistas, sem muita convicção. Há muitas variáveis em jogo. Só que governo só não pode hesitar e ficar inerte diante da queda das exportações.

DEPENDE DELES
O problema concentra-se, basicamente, nos Estados Unidos, que, além de maior devedor, continua injetando dólares sem parar no mercado. E a China, com as maiores reservas e saldos comerciais. Para agravar, o governo chinês resiste aos apelos da comunidade internacional para deixar que o yuan flutue.

A China diz aos EUA que devem administrar melhor a sua economia, que voltem a crescer e reduzam seu endividamento. Em uma frase: ponham sua casa em ordem. Curioso é que, se não fosse essa desordem de os Estados Unidos terem importado dos chineses loucamente, certamente a China não teria crescido fantasticamente como cresceu.

Os EUA respondem que, para sair da crise e crescer, precisam manter os estímulos fiscais e monetários, que aumentam a sua dívida e seus déficits. Por algum tempo, afirmam os americanos, não podemos mudar isso. Se alguém tem que ajudar - e ajudar também a si mesma - é a China. Uma diálogo de surdos que Obama pretende enfrentar na viagem à Ásia que se inicia na próxima semana.

QUAL É A SAÍDA?
Obama vai à procura de caminhos estreitos. Ficará nove dias por lá procurando por eles. No momento, só vê que esse país - e outros, também - importem mais dos Estados Unidos, sem o que a recuperação vai demorar, prejudicando, em última análise, a todos. E aqui a peça chave é a flutuação do yuan.

É pelo comércio internacional que o mundo sai da crise e volta a crescer, afirma Obama, com razão.

Mas, como importar mais com esse dólar que, nas transações comerciais, já se desvalorizou 15% até quarta-feira. São os Estados Unidos que estão exportando mais e importando menos. É o efeito dólar desvalorizado. Por que não fazem alguma coisa? O déficit comercial americano caiu de mais de US$ 800 bilhões para US$ 542 bilhões em setembro! A Casa Branca diz que o aumento das exportações ainda é insuficiente para retomar o crescimento. E aqui se fecha o círculo vicioso.

Diante desse diálogo-impasse, é fácil prever que não há solução à vista.

O secretário do Tesouro, Tim Geithner, reiterou ontem, em Tóquio, acreditar "profundamente que um dólar forte é muito importante para a economia dos EUA (e do mundo). O governo vai tratar disso assim que a economia se recuperar; "trará a política fiscal para um "equilíbrio sustentável". "Reconhecemos a nossa responsabilidade", etc, etc.

Sim, mas isso é para o futuro que não diz quando virá. Yuju Saito, do Societé General em Tóquio, diz que a repetição da promessa de um dólar forte sem qualquer ação no sentido de conter a sua desvalorização "sugere uma aceitação do dólar nos níveis atuais".

O que podemos esperar deles neste ano? Nada, nem neste nem no próximo, talvez.

A China, com reservas enormes e mercado imenso, não tem pressa. Para ela, já está fazendo até demais crescendo a 9% ao ano. Pode ser mais. E querem saber de uma coisa? Tem razão. O Brasil tem mais é que aproveitar esse mercado sem esperar os outros.

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