Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Análise: Varejo quebra 2ª perna do aperto

SÃO PAULO - Passados apenas 22 dias desde que decidiu, contra o consenso, aumentar a dose do aperto monetário, o Banco Central já perdeu os seus dois pontos de apoio para justificá-la sem que um terceiro, novo, esteja maduro o suficiente para sustentar um discurso conservador coerente. A muleta do choque de commodities já foi chutada para longe. A retórica trovejante da demanda interna em ebulição, já questionada seriamente pelos não-alinhados, foi emudecida pelos dados nacionais sobre as vendas varejistas feitas no último mês do primeiro semestre. O fator novo capaz de, no futuro, dar razão ao rigor monetarista - a alta do dólar - ainda se mostra incipiente e tateante. De resto, a sua invocação oficial seria incompatível com a descuidada manipulação dos efeitos sobre a economia do déficit em conta corrente. Se nada de dramático surgir até o dia 10 de setembro, data do próximo Copom, será difícil achar pretextos racionais para manter o ritmo de aceleração da Selic no 0,75 ponto inaugurado há 22 dias. Será aliás difícil encontrar argumentos para amparar qualquer tipo de arrocho. Mas o Copom precisa de pretextos?

Valor Online |

O dólar fechou ontem em alta de 0,68%, cotado a R$ 1,6260. A trégua da véspera, dia em que a moeda cedeu após arrancada altista de sete pregões, revelou-se muito frágil. Mesmo baleados e sofrendo de um surto inflacionário, os EUA parecem estar melhores que a Europa. Esta percepção fortalece o dólar perante o euro e o iene, e diante das moedas usadas como contraface do carry trade especulativo, cuja coqueluche era o real. O PIB da zona do euro registrou uma retração de 0,2% no segundo trimestre do ano. Trata-se da primeira contração na margem ocorrida desde 1995, quando foi iniciada a série. Enquanto isso, nos EUA, o dado econômico que chamou atenção foi estudo da Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR), segundo o qual a revenda de imóveis residenciais feita no segundo trimestre conseguiu crescer em 13 Estados. O problema maior americano é a inflação.

Divulgado ontem, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) apresentou alta de 0,8% em julho (o dobro do previsto pelos analistas), após avanço de 1,1% em junho. Nos últimos 12 meses, a inflação alcança 5,6%. O seu núcleo registrou alta de 0,3%, também acima do esperado (0,2%). O acumulado de um ano do núcleo, de 2,5%, também supera a taxa básica de juros, de 2%. Se as quedas das commodities e do petróleo não fizerem efeito rápido e duradouro sobre a inflação, o Fed terá de elevar a taxa em algum momento do segundo semestre. Mas, ao contrário do Copom, o Fomc não tem nenhuma pressa. O economista-chefe da Gradual Corretora, Pedro Paulo da Silveira, lembra que o Fed fez no início do ano uma política monetária francamente expansionista, com o intuito de evitar que a economia americana entrasse numa recessão mais severa na esteira do colapso do mercado imobiliário.

Se o cenário de deterioração econômica se confirmasse de fato, a situação do mercado financeiro iria piorar significativamente, o que traria pânico aos investidores ao redor do mundo , diz ele. O Fed preferiu focar no crescimento e na liquidez do sistema ao invés de mirar a inflação e, com isso, ganhou tempo para tentar expurgar de vez os créditos podres lastreados em empréstimos imobiliários duvidosos. Aparentemente, esse tempo acabou. Mas subir juros lá não é, como no Brasil, decisão prosaica equivalente a ir comprar pão na padaria da esquina. Aumentar a taxa de juros é tudo o que o Fed não gostaria num cenário de desaquecimento econômico e perdas contábeis nos principais bancos norte-americanos. Principalmente com Europa e Japão em compasso de espera , diz Silveira.

Os juros negociados no mercado futuro da BM & F, apesar da resistência movida pelos comprados em taxa , caíram na BM & F. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, cedeu de 14,75% para 14,73%. Além da queda do petróleo (o barril recuou US$ 0,99, para US$ 115,01) e das commodities, o pregão sofreu influência baixista exercida pelos dados decepcionantes do IBGE sobre as vendas no varejo. Elas cresceram 1,3% em junho comparativamente a maio. Esse avanço consegue ser mais baixo que o prognóstico mais negativo dos economistas. Estes esperavam algo entre 1,35% e 2,80%. A alta anual foi de 8,2%, para uma previsão média de 9,4%. O comércio desacelera a cada novo trimestre, já que a alta anual do primeiro trimestre foi de 11,6%. O mercado não aposta em comportamento diferente para o terceiro trimestre. Para tanto, se baseia em dados (pedido de crédito e confiança do consumidor) a disposição de qualquer um. Até do BC.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG