Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Análise: Tormenta condiciona juro mais que Copom

SÃO PAULO - Às vésperas da reunião de setembro do Copom, até mesmo as taxas de juros privadas de médio prazo têm se movimentado exclusivamente em função da temperatura dos mercados cambiais e do grau de aversão global ao risco. O sobe-e-desce exibido na sexta-feira pelo contrato de swap pré/DI de 360 dias - tido como o verdadeiro piso do custo do dinheiro da economia - foi desconcertante. E a volatilidade não teve nada a ver com supostas apostas divergentes para os próximos passos da política monetária. Pelo contrário, nunca o consenso foi tão monolítico em torno do que o Copom fará depois de amanhã, em outubro e em dezembro. Sem relação também com o IPCA de agosto - alta de 0,28%, aquém das previsões -, o vaivém do swap decorreu das turbulências externas

Valor Online |

A taxa oscilou entre 14,59% e 14,76%, e fechou a 14,64%, em leve queda de 0,05 ponto em relação ao juro de quinta-feira, dia de pânico nos mercados. Se o Copom decidir contrariar o consenso e aplicar uma alta na Selic menor que a precificada nos contratos de juros futuros irá provocar inescapavelmente um ajuste para baixo nas taxas de curto prazo. O efeito sobre as longas poderia nem ser relevante. Nesse sentido, não poderia ser acusado de incentivar a demanda por meio de uma política menos ortodoxa. Mas o Banco Central não irá correr esse risco. Prefere o oposto: o de exagerar na dose e desaquecer a economia em 2009 mais do que o necessário para trazer a inflação à meta.

A política monetária tem a função de sinalizar as metas de juros a partir das quais os players farão apostas condicionadas ao grau de aceitação ou repulsa aos ativos mais arriscados. Teoricamente, essa sinalização produz efeito concreto na economia de seis a nove meses após ter sido iniciado o movimento monetário, para cima ou para baixo. Mas ele provoca, de imediato, uma reação no mesmo sentido do swap 360 dias. Para este caso específico, o impacto das decisões do Copom é imediato. Nos períodos de tormenta global, o Copom passa de motorista a passageiro no bonde dos emergentes.

A busca por segurança nos títulos do Tesouro americano amainou na sexta-feira. O relatório de emprego relativo a agosto mostrou que a economia americana não pode contar muita vantagem em relação, por exemplo, à européia. Foram extintos 84 mil empregos, quando os analistas previam perda de 75 mil vagas. O payroll resgatou o raciocínio anterior à divulgação do PIB americano do segundo trimestre, que registrou inesperada alta de 3,3%, segundo o qual a recessão seria inevitável. Diante disso, o dólar se enfraqueceu e os investidores saíram dos treasuries , tanto que o juro do papel de 10 anos subiu de 3,6245% para 3,7099%. A trégua interrompeu o desmonte das posições alavancadas em mercados emergentes carregadas por hedge funds especulativos. O fim do mundo anunciado na quinta-feira foi adiado na sexta.

Os investidores estrangeiros estancaram o movimento de fuga dos ativos brasileiros. Tanto que todas as taxas longas caíram pesadamente no mercado futuro da BM & F. O contrato para janeiro de 2010 cedeu de 14,82% para 14,73%. O CDI previsto para janeiro de 2011 recuou de 14,55% para 14,40%. Nos pregões de derivativos cambiais da BM & F, os fundos externos, que na quinta-feira haviam mudado de posição - de vendidos em US$ 106 milhões para comprados em US$ 1,69 bilhão -, na sexta já trataram de reduzir essa aposta de alta da moeda. À vista, o dólar fechou em queda de 0,11%, cotado a R$ 1,72.

Inflação corrente comportada e trégua na crise externa poderiam provocar um resultado surpreendente do Copom? Francisco Vasconcellos, analista independente, não vê a menor possibilidade de o Copom voltar ao ritmo de alta de 0,50 ponto que caracterizou as duas primeiras reuniões do atual ciclo de aperto, iniciado em abril. Reduzir agora a velocidade de avanço passaria a impressão de um mea culpa , como se na última reunião, quando intensificou a elevação para 0,75 ponto, tivesse superestimado o impacto da inflação corrente na economia e seus conseqüentes reflexos. Além disso, uma nova mudança no ritmo da alta dos juros não seria condizente com seu papel de coordenador das expectativas futuras , diz o economista.

Para o professor do Ibmec, André Modenesi, é muito provável que o BC mantenha o ritmo de 0,75 ponto, a despeito do arrefecimento das pressões inflacionárias tanto externa quanto domesticamente. Chama a atenção a rigidez que a autoridade monetária tem conferido ao regime de metas de inflação. Enquanto Fed, BCE e BOE têm sido até complacentes com a inflação, o BC visa uma convergência do IPCA para o centro da meta já em 2009 , diz Modenesi.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG