SÃO PAULO - O pior momento do surto inflacionário brasileiro já pode ter passado. As instituições que mais acertam previsões de IPCA já começaram a revisar para baixo suas expectativas tanto para este ano quanto para o próximo. O Boletim Focus divulgado ontem pelo Banco Central revelou que as Top 5 reduziram de 6,60% para 6,53% a projeção de índice acumulado em 2008. No cenário de médio prazo, a expectativa para 2009 recuou de 5% para 4,7%. As projeções desse grupo mais bem informado costumam ditar a tendência para o restante do Focus, abastecido ao todo por cerca de cem instituições. As Top 5 de junho (última relação conhecida), referente às projeções de IPCA, são na verdade sete, já que as três últimas ficaram empatadas na quinta colocação. Pela ordem: Concórdia Corretora, Goldman Sachs do Brasil, Link Corretora, Rosenberg & Associados, Banco Itaú BBA, Brascan Gestão de Ativos, UBS Pactual.

O Boletim Focus de ontem ratificou, tanto no IPCA quanto na expectativa de juros, os sinais já emitidos pelo BC de que pretende, na reunião do Copom marcada para a semana que vem, persistir no compasso de 0,50 ponto de alta da taxa Selic. O Focus - pleno e Top 5 - manteve em 12,75% o prognóstico de juro básico para o final do mês (a taxa está hoje em 12,25%) e em 14,25% o juro para o final do ano. O mercado acredita que, hoje de manhã, em depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o presidente do BC, Henrique Meirelles, irá reafirmar esta sinalização.

O pregão de juros futuros da BM & F, por falta de liquidez e a necessidade de promover ajustes técnicos a operações casadas com a venda de NTN-B, não refletiu a distensão inflacionária antevista pelas Top 5. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, subiu de 15,09% para 15,13%. O giro de negócios não conseguiu superar os 365 mil contratos, quando a média do ano ultrapassa 560 mil.

Os players que fecham negócios milionários no DI não ignoram o fato matemático de que o calendário do segundo semestre dará uma ajuda ao gradualismo do BC. O Copom não precisará aumentar a taxa de juros para garantir um rendimento maior por causa do maior número de dias úteis no segundo semestre. No primeiro semestre, a média mensal foi de 20,5 dias úteis. No segundo, ela subirá para 21,83 dias úteis por mês. Na HP 12C, com Selic a 12,25% até o fim de julho, o juro efetivo por dia útil alcança 1,05%. Se a Selic subir para 13% a partir do dia 24 - decisão de alta de 0,75 ponto pelo Copom na reunião do dia 23 -, o juro efetivo será de 1,06% em julho. A diferença é muito pequena. Como junho teve 21 dias úteis e julho terá 23, mesmo que, na hipótese mais improvável, o Copom decida manter a taxa em 12,25%, a remuneração por dia útil passará de 1%, o que não acontece desde maio de 2007. Como o IPCA do mês não ultrapassará 0,59%, pela mediana Focus, o ganho será muito atraente em qualquer hipótese.

A remuneração parece muito adequada também em face da onda de pessimismo sobre o futuro de médio prazo da economia mundial. Não faz sentido acelerar agora a velocidade de alta da Selic se o mundo corre o risco de entrar num ciclo de recessão e deflação. Se essa tendência se firmar, os fundamentos farão as bolhas especulativas de commodities explodir, crescerá a aversão ao risco e o dinheiro migrará para os títulos do Tesouro americano. O petróleo ficou praticamente estável, encerrando o pregão da Nymex a US$ 145,18.

Ingressos de capitais fizeram o dólar fechar abaixo de R$ 1,60 pela primeira vez no mês. Cotada a R$ 1,5930, a moeda desvalorizou-se 0,49%. Há várias frentes exercendo pressão para baixo. A mais vigorosa é a entrada de estrangeiros interessados em comprar ações da Vale, cuja operação de oferta, no valor estimado de US$ 15 bilhões, iniciou-se na sexta-feira e termina hoje. E, este mês, o BC não está muito interessado em adquirir moeda em leilão para segurar a queda.

De acordo com os fatores que condicionam a expansão da base monetária, as compras de dólares no mercado até o dia 4 totalizaram US$ 317 milhões, o equivalente a US$ 79,4 milhões ao dia. Se este padrão for mantido ao longo de julho, o BC estará reduzindo o ritmo de compra de dólar ao segundo menor nível do ano. Apenas em março, as compras médias diárias foram menores, alcançando US$ 58 milhões, o que resultou em compra mensal equivalente a US$ 1,19 bilhão. Em junho, as compras foram de US$ 96,36 milhões ao dia, cerca de US$ 2,02 bilhões no mês. Em maio, de US$ 2,531 bilhões e, em abril, de US$ 3,96 bilhões.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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