SÃO PAULO - Com a alta registrada pelo dólar desde o começo de agosto, os contratos de swaps cambiais reversos já estão dando prejuízo aos bancos. O Banco Central, o emissor do papel, paga aos bancos a rentabilidade proporcionada pela Selic no período e recebe em troca a variação do dólar.

Quando a moeda americana só caia, a festa era completa: os credores não só recebiam o maior juro real do mundo como também a taxa cambial negativa. Os lucros foram enormes desde que o BC lançou esses contratos, em 2004, para diminuir a velocidade de queda do dólar. Com o agravamento da crise americana, passaram a dar prejuízo em cima de um estoque bem elevado.

A carteira dos bancos em swaps reversos soma um pouco mais de US$ 23 bilhões. Do início de agosto, quando a cotação do dólar foi ao piso do ano, a R$ 1,5590, até sexta-feira, quando fechou a R$ 1,8510, a alta foi de 18,73%. Ou seja, em quarenta dias úteis, o dólar subiu mais do que a remuneração paga pela Selic (13,75%) em um ano. Apesar das perdas, o BC irá realizar hoje leilão destinado a rolar os contratos que irão vencer quarta-feira, primeiro dia útil de outubro. Após pesquisa feita no final da tarde de sexta-feira, o BC anunciou a venda de até 42,4 mil contratos. Os bancos credores manifestaram a intenção de rolar os papéis na esperança de que o plano americano de salvamento dos bancos que, após acordo acertado ontem com os líderes do Congresso, deve ser votado hoje na Câmara e até quarta no Senado, volte a derrubar o dólar. Se isso não acontecer, a saída é rejeitar os papéis e não renovar.

A perspectiva de desaceleração mais intensa da economia brasileira por causa da retração do crédito fez o mercado futuro de juros da BM & F ignorar as pressões de altas vindas do mercado de câmbio e dos EUA. Quando o pregão de juros futuros fechou as portas na tarde de sexta-feira, o impasse político em torno do pacote de ajuda persistia e o dólar, a despeito de leilão de venda do BC, tinha fechado em alta de 1,59%, cotado a R$ 1,8510. São dois fatores que, em tempos menos irracionais, puxariam fortemente os contratos futuros para cima. Mas todas as previsões de CDI recuaram. O contrato mais negociado, com vencimento em janeiro de 2010, caiu pesadamente de 14,72% para 14,66%. A swap de 360 dias - taxa-piso para as operações de crédito - cedeu de 14,63% para 14,59%.

O motivo para a queda foi a expectativa de que o Copom do Banco Central terá de interromper imediatamente o ciclo de alta da taxa Selic. Iniciado em abril, quando a taxa estava em 11,25%, o movimento de avanço seria estancado agora com juro básico a 13,75%. A alta acumulada de 2,5 pontos ainda nem teve tempo de produzir efeitos contracionistas sobre a demanda e os analistas acreditam que o contágio externo poderá, via secura do crédito, minar a atividade antes (e se sobrepondo) aos esforços do Copom.

Mas como ainda falta muito tempo até o próximo Copom, agendado para 29 de outubro, não dá para precificar uma parada do juro. O BC resistirá ao máximo em interromper a alta sem ter certeza absoluta sobre o declínio da demanda. O raciocínio segundo o qual a irrigação de liquidez promovida por ele via compulsórios e leilões de linhas externas é incompatível com uma política monetária de arrocho não vale para o BC. Para os analistas, trata-se de conduta pautada por cautela extrema, característica dos bancos centrais. Na verdade, é esquizofrenia mesmo, capaz de vitimar empresas endividadas. " Eu faria uma alta de 0,25 ponto apenas para caracterizar o encerramento do ciclo. Mas acredito que irá prevalecer o sinal já dado de avanço de 0,50 ponto " , diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

O estrategista da Pentágono Asset, Marcelo Ribeiro, diz que a escalada do dólar complica o cenário pré-Copom. " O real em processo de apreciação era um poderoso aliado dele no combate à inflação " , diz Ribeiro. O viés agora é de clara depreciação, com a agravante de que, por causa da contração global de liquidez, os países emergentes terão de competir, via juro, pelos recursos cada vez mais escassos. " Deveremos observar um processo de elevação competitiva de juros pelos BCs dos países emergentes " , prevê Ribeiro.

Relatório de Inflação sem novidades - O BC divulga hoje o seu Relatório de Inflação referente ao terceiro trimestre do ano. Trata-se de uma das peças fundamentais do arcabouço legal que rege o sistema de metas de inflação. Por isso, a sua divulgação costuma ser cercada de grande expectativa e ansiedade. O de hoje, nem tanto. O Relatório deve ter sido fechado antes do agravamento da crise americana ocorrido no dia 16 após a quebra do Lehman Brothers. A grande dúvida consiste na taxa de câmbio que será usada para a projeção de IPCA para este ano e 2009 pelos modelos do BC e do mercado. Qual dólar usar? Quanto mais alta a cotação, maior a projeção. Pelas contas do economista-chefe da SLW Asset, Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, se o BC usar o dólar que está na ata, de R$ 1,70, as estimativas não serão muito diferentes das mostradas no último relatório. Pelo cenário do BC, IPCA de 6% este ano e de 4,7% no ano que vem
(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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