Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Análise: Sob ataque, viés do Focus muda logo

SÃO PAULO - O ataque às expectativas inflacionárias desfechado tanto pela decisão do Copom de aumentar a dose do aperto monetário quanto pelo tom mais estridente da retórica conservadora usada em ata para justificá-la, o declínio da inflação corrente e a descompressão das commodities não devem demorar a surtir efeito sobre as projeções de IPCA do Boletim Focus do Banco Central. Alguns analistas acreditam que o relatório de mercado que será divulgado hoje já trará alterações importantes na rota dos prognósticos. No boletim anterior, a mediana das cem instituições pesquisadas apontava taxa de 6,58% para 2008, 5% para 2009 e 5,44% para 12 meses à frente.

Valor Online |

A contrapartida será uma redução no crescimento do PIB previsto para o ano que vem. Atualmente, a expansão projetada é de 3,9%. Em relatório distribuído sexta-feira a clientes, a consultoria do ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore, manteve em 4,8% a alta do PIB projetada para este ano mas reduziu para 3,5% o crescimento esperado para 2009. A desaceleração vem da elevação da taxa real de juros, ajudada por alguma desaceleração da economia internacional. A inflação medida pelo IPCA chegará próxima do limite superior para o intervalo contendo a meta de inflação, de 6,5% em 2008, declinando em 2009 para 5% ao ano , diz Pastore.

Sozinha, a política monetária não conseguirá reduzir o crescimento econômico no ano que vem a ponto de trazer de volta o IPCA para a meta de 4,5%. Para isso, a pancada no juro deveria ser muito maior do que a esperada. Não basta a Selic chegar ao fim do ciclo de aperto monetário ao patamar entre 14,75% e 15,75% projetado pelos analistas para conseguir derrubar a inflação. Ao esforço monetário desenvolvido pelo Copom se soma, na opinião do economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o desaquecimento econômico mundial induzido pela ação não coordenada mas global dos bancos centrais. Só assim o BC conseguirá acertar tempestivamente nos alvos inflacionários.

No entender de Agostini, sem a desaceleração global e a mudança de portfólios, o BC teria de jogar a economia brasileira na lona para lograr inflação perto de 4,5% no ano que vem. Para conseguir isso, a atuação monetária teria de ser de fato vigorosa . Não bastaria reduzir a expansão do PIB de 4,8% este para o degrau entre 3,5% e 3,7%. Teria de derrubar o PIB para a faixa entre 1% e 2%.

A efetividade da política monetária atual considerando-se apenas o canal de crédito é muito baixa. Para o economista da Austin Rating, é difícil precisar quando uma empresa ou um consumidor deixa de tomar crédito por conta do nível da taxa de juros básica. O que se pode esperar é que a decisão seja tomada quando o nível dos juros sobe concomitantemente à escassez de crédito e dificuldades econômicas (redução das receitas). E hoje o que se observa é não apenas um grande aumento do volume de crédito, mas também um patamar historicamente baixo de taxas de juros, o menor desde o início da década de 70. Não será com Selic de 13% hoje ou de 13,75% em 10 de setembro que o BC conseguirá reduzir o volume de crédito oferecido à sociedade. E quando a Selic chegar a 15,75% no final do ciclo? Para Agostini, para afetar o crédito seriam necessários aumentos maiores de juros (algo acima dos 20%, taxa semelhante à de meados de 2005, época anterior à explosão do crédito) ou demais medidas restritivas, como o limite ao número de parcelas de financiamentos, elevação da alíquota do depósito compulsório, entre outras. Por enquanto, nenhuma dessas medidas é esperada , observa o economista.

Para boa parte do mercado, a decisão que o Copom tomará no dia 10 de setembro foi irremediavelmente comprometida pela mudança de ênfase monetária definida na reunião passada, de 23 de julho. O BC acelerou vigorosamente a velocidade de alta da taxa básica de 0,50 ponto para 0,75 ponto. Porção significativa de analistas entende que, como está preocupado exclusivamente com a inflação de 2009, o acelerador será automaticamente mantido no 0,75 ponto independentemente do que revelarem os próximos indicadores de preços e atividade econômica.

Os economistas do Bradesco discordam. Não há esse alinhamento cármico automático. Embora a opção natural seja mesmo por novo avanço de 0,75 ponto, para a instituição a ata deixou a porta aberta para ajustes alternativos na Selic. Mantidas as condições atuais de preços de commodities, atividade crescendo no ritmo atual e expectativas de inflação para 2009 no patamar atual (ou muito pouco abaixo disso), o ajuste será similar ao realizado em julho , diz relatório da instituição. Sem dogmatismos obscuros, o Departamento Econômico do Bradesco complementa: Sinais inequívocos de descompressão em uma ou mais dessas variáveis ensejarão mudança no ritmo .

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG