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SÃO PAULO - Dois eventos promoveram ontem uma reviravolta nos mercados financeiros globais. Ambos ocorreram nos EUA. O primeiro foi a deterioração do principal índice de inflação do atacado, o PPI. O segundo, o agravamento da crise de confiança envolvendo importantes bancos americanos e novas evidências de desaceleração econômica. O primeiro fator recomenda ao Federal Reserve (Fed) a imediata elevação dos juros, fortalecendo o dólar, o que é ruim para as commodities e o petróleo. Mas ele não poderá apertar a política monetária por causa do segundo fator. Este foi considerado mais decisivo que o primeiro. Foi por isso que o dólar perdeu valor na Europa, na Ásia e no Brasil. Foi por isso também que o petróleo fechou em alta de 1,47% na Nymex, cotado a US$ 114,53. Os mercados brasileiros acompanharam.

O dado que, de manhã, afundou o índice Bovespa a 52.344 pontos (-1,84%), por tornar urgente a alta do juro americano, foi o Índice de Preços ao Produtor (PPI) de julho. Ele subiu 1,2%, o dobro das expectativas, acumulando em 12 meses avanço de 9,8%, o maior dos últimos 26 anos. O núcleo do PPI também preocupa. Teve alta de 0,7% no mês passado, para uma expectativa de 0,2%. Acumula em doze meses 3,5%. Mas no mesmo momento em que era divulgado o PPI, o Departamento do Comércio revelava dados mostrando que a crise imobiliária ainda está bem viva. No mês passado foram iniciados 11% menos construções residenciais que em junho. A baixa em um ano atinge 29,6%. As permissões a novas edificações caíram 17,7%, mais do que o esperado (12,9%) pelos analistas. O cheiro desagradável no ar é de estagflação.

E a crise de crédito? Os bancos problemáticos não conseguem limpar suas carteiras. Em Cingapura, talvez encorajado pela falsa segurança de estar bem longe de casa, o ex-economista-chefe do FMI, Kenneth Rogoff, garantiu que o pior da crise ainda está por vir. Esta sua previsão se baseia na certeza de que importantes instituições financeiras dos EUA irão quebrar. Sem mencionar nomes, Rogoff previu a falência de um banco de investimentos relevante ou de grande banco de atacado, ou de ambos. Menos comedido que Rogoff, o chefe de investimento do Cumberland Advisors, David Kotok, deu nome aos bois. Para ele, entre outras instituições , estão sob ameaça de insolvência e quebra firmas do calibre da Merrill Lynch e do Wachovia. Ou seja, Kotok listou um banco de investimento relevante e um bancão de varejo.

Ninguém falou explicitamente no nome da Lehman Brothers, mas a instituição se apressou em informar que procura comprador para sua unidade de gerenciamento de ativos. Antes que alguém se lembre dele, o Goldman Sachs jogou os holofotes sobre a seguradora AIG, que poderá ter seu rating reduzido pois suas perdas em CDO, as obrigações de dívida colateralizada, podem chegar a US$ 20 bilhões. Alguém lembrou do Citibank? O Citi, uma das maiores instituições financeiras do mundo, pagava no início de 2007 algo como 7,13 pontos-base a mais que a taxa de juro livre de risco (do treasury). Hoje, o mesmo banco não consegue captar na praça por menos de 168,66 pontos-base. Quem faz a comparação, para exemplificar a disseminação da crise de crédito americana, é a Gradual Corretora.

O dólar negociado no mercado doméstico seguiu o viés de fraqueza exibido lá fora pela moeda americana. Com uma agravante: os exportadores, que ao longo do mês estavam retendo contratos até que ficasse mais clara a tendência e o ímpeto da moeda, desovaram os dólares represados ao longo do dia. Isso ajudou a aprofundar a queda. E o dólar fechou em baixa de 0,73%, cotado a R$ 1,6270. Os juros caíram no mercado futuro da BM & F por duas razões. A primeira é que, mantida a desvalorização do dólar ensaiada ontem, o câmbio voltará a ajudar o Banco Central a combater a inflação. A segunda é que, se persistir a debilidade do dólar nos mercados globais, os especuladores retornarão com o carry trade. Isso derruba o juro longo. O CDI negociado para a virada do ano caiu ontem de 13,80% pra 13,79%. A taxa para janeiro de 2010, o contrato mais negociado, recuou de 14,66% para 14,60%. O contrato para janeiro de 2012 passou de 14,06% para 13,96%.

As taxas caíram bem ontem sem que tivesse sido divulgado índice relevante de inflação. Isso não acontecerá hoje. Os dois índices do dia estão cercados de grande ansiedade. Bem cedo, a FIPE-USP divulga o IPC da segunda quadrissemana do mês, para a qual as estimativas começam em 0,30% e terminam em 0,39%. Para a segunda prévia do IGP-M, que a FGV divulga depois, espera-se alguma coisa entre deflação de 0,25% e estabilidade.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)