SÃO PAULO - A disparada ocorrida ontem nos juros futuros só se justificaria na hipótese de o Banco Central ser forçado a elevar a Selic para dissuadir fuga de capitais estrangeiros, evitando, dessa maneira, um overshooting cambial capaz de deteriorar as expectativas de inflação. Nada disso aconteceu ontem.

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Apesar da arrancada do dólar, não se pode falar em fuga de estrangeiros. Pelo contrário, eles estão cada vez mais presentes nas posições "compradas" em câmbio na BM & F. As posições líquidas detidas por hedge funds externos subiram de US$ 6,185 bilhões no dia 30 para US$ 6,67 bilhões no dia 1º de outubro.

Se tivesse ocorrido ontem qualquer movimento que, de longe, pudesse caracterizar uma inquietante evasão de dólares, responsável que é o BC teria feito vários leilões de venda de dólares. E não os leilões compromissados, mas os diretos mesmo, de venda pura. Não fez nenhum.

Sua ausência do mercado não deve ser entendida como uma teimosia de sovina, destinada a economizar reservas internacionais. Se de fato ele detectasse a necessidade de gastar reservas para conter fugas, ele o faria. Mas não precisava. A sua ausência equivaleu ao recado de que a alta do dólar, cessado o movimento especulativo, não se sustentará.

Se entrasse com leilões de venda (direta ou compromissada) poderia fazer o jogo dos especuladores. Manteve a calma mesmo quando, no início da tarde, a moeda foi empurrada para R$ 2,04, em alta de 5,97% em relação à véspera. Diante da indiferença oficial, os especuladores desistiram de continuar puxando. E o dólar fechou cotado a R$ 2,0230, em valorização de 5,09%.

O BC não percebeu nem falta de liquidez, nem de linhas externas. Operadores de câmbio consideram a notícia de que ele vai divulgar semanalmente os dados relativos ao fluxo cambial indício de que pretende demonstrar que não está faltando liquidez no sistema. Como não faltou em setembro.

De acordo com dados oficiais, depois que o Lehman Brothers quebrou, no dia 16 de setembro, o volume de ACC caiu de US$ 278 milhões para um mínimo dia US$ 117 milhões no dia 22. Nesse dia, o pior da série, o volume de ACC representou 18% do montante do câmbio contratado, mas nunca as linhas secaram de vez. Na média dos 26 primeiros dias de setembro, o ACC representou 28% do total, bem parecida com a de agosto (26,98%) e de julho (25,4%).

A maior parte do câmbio contratado (um pouco mais da metade) se refere a operações à vista. E em setembro essa parte não foi afetada pela crise. O BC teria feito ontem leilão compromissado de venda de dólar se tivesse observado uma secagem de linhas. E venderia à vista sem compromisso de recompra se o movimento fosse de fuga líquida e simples. Afinal, os US$ 206 bilhões das reservas internacionais não pertencem ao BC. Em caso de terror pânico absoluto serão sacados pelos seus verdadeiros donos.

Desligados de qualquer fundamento, lógica e expectativa racional, os contratos futuros de juros dispararam ontem na BM & F. O contrato mais negociado, com vencimento em janeiro de 2010, pulou de 14,37% para 14,54%. A taxa para janeiro de 2011 avançou de 14,13% para 14,44%. Os contratos mais curtos não conseguiram emplacar essa alta especulativa. Para a virada do ano, a taxa subiu apenas 0,02 ponto, de 13,98% para 14%.

Os juros não deveriam ter subido no futuro por duas razões interdependentes: a alta do dólar é passageira pois o mundo ameaça entrar em recessão a partir dos EUA. No dia seguinte ao da aprovação pelo Senado do pacote de socorro aos bancos, o espectro que rondou as mesas de operações atendia pelo nome de recessão.

Se o plano já parece insuficiente para dar conta do problema para o qual foi criado - evitar a desintegração do sistema financeiro americano - ajudará muito pouco em evitar uma desaceleração econômica mais forte. É o caso de o Federal Reserve (Fed) não esperar por sua reunião ordinária do final do mês e reduzir já a taxa de juros básica? Para um juro básico de 2%, os contratos futuros de Fed Funds chegaram a operar ontem a 1,125%.

Isso resolve? Mas não foram os juros muito baixos do final da era Greenspan (o piso de 1% durou de julho de 2003 a maio de 2004) justamente os maiores incentivadores da bolha imobiliária cujo filhote mais funesto foi o subprime?

Os dados sobre a economia real americana divulgados ontem alimentaram o pesadelo da recessão. Foram feitos mil novos pedidos de auxílio-desemprego na semana passada, quando a projeção dos analistas era queda de 18 mil. O total de solicitações (497 mil) remonta ao período dos atentados de setembro de 2001. E as encomendas feitas à indústria em agosto caíram 4%. Os economistas esperavam queda, mas de 3%.

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