SÃO PAULO - Na volta hoje do feriado paulista da Revolução de 1932, o pregão de juros futuros da BM & F terá de fazer poucas correções ditadas pelo comportamento exibido ontem pelo mercado externo. Isto porque, o que vinha sendo uma maldição - o atrelamento dos CDIs à arrancada do petróleo e das commodities - agora se mostra uma benção. Se o DI estivesse vinculado, como há um ano, à crise das instituições financeiras americanas os ajustes seriam mais intensos e trabalhosos.

Mesmo num dia em que o Irã decidiu exibir os seus músculos para Israel, por meio da realização de testes com mísseis, o barril negociado na Nymex não se revelou muito nervoso. A cotação chegou a cair 0,03% (US$ 136,00) e a subir 1,21% (US$ 137,69), para fechar com levíssima evolução de 0,01%, a US$ 136,05. Se os testes iranianos tivessem ocorrido na semana passada, com barril a US$ 145,00, rapidamente o preço chegaria a US$ 150,00. Agora não mais porque o mundo, não só os EUA, está pisando no freio e irá demandar menos commodities, sobretudo nos preços atuais.

As bolsas de Wall Street tombaram ontem mais de 2% por causa da recaída sofrida pela crise de crédito. Se ela adia o aperto monetário ensaiado pelo Federal Reserve (Fed), empurra mais ainda a economia americana para os braços da recessão. Isso não combina com bolhas. O pedido de concordata da rede de varejo Steve & Barry´s LLC, feito ontem à tarde, ajudou a tirar francos-atiradores do petróleo.

Dos mercados domésticos mais dinâmicos, apenas o dólar registrou cotações ontem. Fechou em baixa de 0,18%, vendido a R$ 1,61, acompanhando a queda da moeda frente ao euro e ao iene. A não realização do tradicional leilão de compra pelo Banco Central ajudou a deprimir ainda mais o volume de negócios, já que a operação - casada com os mercados de derivativos de câmbio da BM & F -, ajuda a ampliar as oportunidades e o giro de negócios.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, diz que, após três anos de uma visão altista, a consultoria vê agora a possibilidade de uma desaceleração nos preços das commodities. Não se trata de uma pausa num patamar elevado, mas a crescente probabilidade de que os preços de fato caiam. E o canal seria pela demanda em desaceleração ao mesmo tempo que a oferta é estimulada pelos elevados preços atuais. Isso vale principalmente para produtos agrícolas, cuja resposta de produção pode ser mais rápida do que em petróleo e metálicas, cujo ciclo de produção é mais demorado , diz o economista. Mas o possível ajuste não deve significar a volta a níveis anteriores de preços permanentemente. Com a volta do crescimento, a tendência é que gradualmente vejamos os preços de commodities se recuperarem, o que poderia começar a acontecer em 2010 , prevê Vale.

Como os países desenvolvidos já estão em processo de desaceleração econômica, para a MB são os bancos centrais dos países emergentes os que darão o tom do comportamento das commodities em 2009. Parece claro, para a consultoria, que os BCs não estão dispostos a permitir a continuação da aceleração inflacionária. Em primeiro lugar porque - num entendimento que vai além do lugar-comum do consenso ortodoxo - a MB não vê na política fiscal capacidade de ajuda na contenção de preços. O limite para utilização de subsídios parece ter alcançado o topo, como na Índia, por exemplo, onde o subsídio total é de 4% do PIB. Além disso, conter demanda via política fiscal não é fácil de fazer no curto prazo e não parece haver movimentação dos países nesse sentido. Pelo contrário, a possibilidade de distúrbios sociais por conta da crise de alimentação torna a política fiscal via transferência social um paliativo para os aumentos de preços.

Os próximos movimentos do petróleo e o IPCA de junho, que será divulgado hoje, definirão as apostas para o Copom do dia 23. O professor de economia da UFPR, José Luis Oreiro, defende a manutenção do atual ritmo de alta da taxa Selic de 0,50 ponto. Mas o seu modelo de predição VAR (Vetores Auto-Regressivos) sugere a aceleração para 0,75 ponto. O modelo foi alimentado com séries de PIB real, moeda (M1 e M2) e IPCA. Na previsão da taxa de câmbio nominal incluiu no VAR os juros nos EUA e as reservas brasileiras. O resultado foi Selic no final deste mês de 12,94% e câmbio a R$ 1,548. O modelo indica a preservação do ritmo de 0,75 ponto também no Copom de setembro. Em consonância com a aceleração do ritmo de elevação da Selic, a taxa nominal de câmbio deverá continuar a sua trajetória de apreciação, alcançando o patamar de R$ 1,50 em setembro, o que representa uma apreciação de cerca de 6,8% nos próximos dois meses , diz Oreiro.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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