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SÃO PAULO - As taxas de juros longas registraram ontem impressionantes e inesperadas quedas. Tomando-se apenas as viradas de ano, enquanto há uma alta na passagem de 2008 para 2009 - de 13,95% para 13,97%, ainda como reflexo do atual aperto monetário -, nas seguintes já se constata baixas, cuja intensidade se amplia quanto mais longo for o contrato. O CDI com vencimento no dia 1º de janeiro de 2010 recuou de 14,82% para 14,71%. Já a taxa para janeiro de 2011 tombou 0,20 ponto, de 14,55% para 14,35%. O contrato com resgate um ano depois caiu 0,21 ponto, a 14,04%. Essas quedas denunciam a expectativa de um cenário externo um pouco melhor e de um crescimento econômico brasileiro sustentável e sem gerar pressões inflacionárias.

As taxas curtas avançaram por causa do arrocho monetário pesado comandado pelo Copom. O vencimento para a próxima virada de mês subiu 0,06 ponto, para a 13,52%. Para novembro o CDI aumentou 0,02 ponto, a 13,57%. E, para o último mês do ano, subiu 0,03 ponto, para 13,78%. O volume de negócios no pregão de DI futuro da BM & F dobrou em relação à véspera. Foram negociados 882 mil contratos. Como o Copom respeitou a sinalização de mais uma alta de 0,75 ponto, não serão necessários hoje ajustes dispendiosos nos contratos.

Se o mercado de juros leu os dados do PIB como provas inquestionáveis do acerto do Copom em acelerar o ritmo de aumento da Selic, eles podem ser interpretados pelo que de fato são: a comprovação de que a economia está crescendo no mesmo compasso dos trimestres anteriores, sem explosões de demanda nem geração de surtos inflacionários, exceto os de natureza paranóica do BC. Ridiculariza-se desta forma o bicho-papão neoliberal de que o Brasil não poderia sustentar um crescimento razoável sem precipitar-se na espiral inflacionária. A alta real do PIB no segundo trimestre, de 6,1% clona quase fielmente a expansão registrada no primeiro trimestre (5,9%) e no quarto trimestre de 2007 (6,2%).

Não há aceleração do ritmo do crescimento econômico, sendo infundadas as teses de que este crescimento estaria criando as pressões inflacionárias que o inviabilizaria , constata o IEDI. Nem o vôo é de galinha, nem há contágio paralisante vindo da crise. A contaminação provém unicamente do repique pontual da inflação decorrente do choque especulativo de commodities, já revertido. Ontem, o índice CRB de 19 commodities caiu 0,72%. No mês, a baixa é de 8,54%. E já devolveu toda a alta acumulada no ano, uma vez que, desde ontem, o saldo é negativo em 0,12%.

O PIB trouxe duas boas notícias. A primeira foi a de que o crescimento, nada explosivo, não deveria inspirar temores oficiais. A segunda é que a maior parte do crescimento se escorou em investimentos produtivos, não em consumo desvairado, alavancado e inflacionário. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), cresceu 16,2% no segundo trimestre comparativamente a igual período do ano passado e 5,4% na comparação com o primeiro trimestre deste ano. Como no primeiro semestre a alta foi de 15,7% ante igual período de 2007, constata-se que os empresários não estão com medo de investir. No mesmo dia em que o IBGE divulgou o PIB, a FGV mostrou que a inflação medida pela primeira prévia de setembro do IGP-M foi zero.

O dólar, movido a especulação comprada de hedge funds, operou ontem na mão contrária à da trégua sinalizada tanto pelos juros internos longos quanto pelo mercado de ações. Na oitava alta consecutiva, a moeda fechou com valorização de 0,90%, cotada a R$ 1,7880. Mais uma vez o BC, para alegria do Ministério da Fazenda, colaborou para a amplificação do movimento de alta. Realizou seu habitual leilão de compra, desta vez bem no início da tarde, e pagou R$ 1,7812, sancionando, naquele instante (13 horas), alta de 0,56%, que depois, até o fechamento, intensificou-se. Adquiriu somente US$ 10 milhões.

O movimento de alta não terá muito fôlego se persistir cedendo a aversão externa ao risco. Os juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano subiram ontem de 3,5732% para 3,6156% porque diminuiu o medo de quebra de instituições americanas. Os resultados do Lehman Brothers vieram bem ruins, mas os novos sinais são de que o banco sobreviverá. E o petróleo persistiu em queda, indicando menores pressões inflacionárias. Talvez o Federal Reserve (Fed) nem tenha de subir o juro no começo de 2009. O barril negociado na Nymex recuou 0,66%, para US$ 102,58, apesar de a Opep ter decido cortar sua produção de 29,67 milhões de barris para 28,8 milhões de barris ao dia. Pesaram mais as informações sobre recuo na demanda pelo produto.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)