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Análise: Mortos e champanhe no pós-Copom

SÃO PAULO - O mercado financeiro se ajustou à decisão do Copom de ampliar o arrocho monetário contra a inflação de forma clássica: 1) Os juros futuros curtos subiram porque o Banco Central tende a permanecer severo e rigoroso até o fim do ano; e os longos caíram porque, garantida a meta de IPCA de 4,5% para 2009 e 2010, a Selic poderá cair. 2) Como o Brasil atrairá mais operações de carry trade e capitais especulativos de toda a espécie, em face do alargamento do diferencial de juros, o dólar tende a insistir no viés de baixa. Ontem, fechou em queda de 0,28%, a R$ 1,5795. Só não se desvalorizou mais porque investidores estrangeiros saíram da Bolsa e foram embora. 3) Se não bastasse o dia ruim em Wall Street, a Selic de 13% tirou dinheiro do mercado de ações e a Bovespa caiu 3,34%.

Valor Online |

No pregão de juros futuros da BM & F, a quinta-feira foi de contagem de mortos - os que confiaram nos textos do BC (a ata e o Relatório de Inflação) que sinalizavam incontroversamente a intenção de persistir na toada gradualista do 0,50 ponto de alta da Selic por reunião do Copom - e de abertura de champanhe pelos que apostaram que os índices de inflação de maio e junho surpreenderam e assustaram os oito votantes do Comitê, embora o BC negue qualquer sobressalto. A aceleração monetária de anteontem - justamente no ponto de inflexão caracterizado por uma inflação corrente menos viçosa - pode ter sido uma reação tardia a um fato velho. Para fazer a contabilidade dos lucros e das perdas, o DI futuro girou ontem mais de 2,14 milhão de contratos, no valor de R$ 193 bilhões.

Os grandes ganhadores com o encurtamento da rédea monetária do BC foram os bancos. As tesourarias fecharam o dia do Copom compradas em taxa (aposta de que a Selic subiria mais do que vinha subindo) em R$ 99,21 bilhões. Os perdedores foram os investidores estrangeiros ( vendidos em taxa em R$ 116,23 bilhões) e os fundos de investimentos domésticos ( vendidos em R$ 16,22 bilhões no dia 23). Estas posições são líquidas, ou seja, o saldo entre posições compradas em um contrato e vendidas em outro. O ideal seria se o investidor estivesse comprado no curto e vendido no longo, pois teria faturado nas duas pontas.

No day after do Copom, o CDI para setembro próximo subiu 0,13 ponto, para 12,85%, enquanto o referente a outubro ganhou 0,14 ponto, a 13,06%. A taxa para a virada do ano avançou de 13,52% para 13,70%. Os contratos longos, com vencimento a partir de 2010, recuaram. O CDI previsto para janeiro de 2010 caiu de 14,91% para 14,86%. Janeiro 11 cedeu de 14,82% para 14,59%. As correções levaram em consideração apenas o revigorado furor monetarista do BC. Os players ignoraram o arrefecimento do índice oficial de inflação. O IPCA-15 de julho acusou alta de 0,63%, bem abaixo da mediana das expectativas e encostado no piso dos prognósticos (entre 0,62% a 0,75%). Depois de terem errado as previsões para este último Copom, os analistas não querem conversa: mesmo que a inflação despenque daqui para a frente, a decisão do próximo (dia 10 de setembro) já está dada: nova alta de 0,75 ponto. Se o Copom desacelerar para 0,50 ponto, estará admitindo que se equivocou anteontem por excesso de ardor monetarista ou por exagerado apego à vaidade egóica inerente ao galardão de o banco central mais conservador do mundo , conferido internacionalmente. O estreitamento da gravata monetária não fez os economistas alterarem sua expectativa de alta acumulada pela Selic ao cabo do ciclo. A projeção de taxa final varia de 14,75% a 15,25%. Há concentração de apostas em 15%: o BC faria mais duas altas de 0,75 ponto e voltaria ao 0,50 ponto no último Copom de 2008.

Brasil amplia liderança mundial em juro real - Com o endurecimento da política monetária, o Brasil ampliou a sua vantagem na liderança dos maiores pagadores de juros reais do mundo. A Selic de 13% projeta para os próximos 12 meses taxa de 7,2% acima da inflação. O segundo lugar pertence a Austrália, com juro real de 5,7%. A Turquia, com taxa real de 5,3%, comparece na terceira colocação. Para que o Brasil perdesse o troféu, o BC deveria ter cortado a taxa em 1 ponto, de 12,25% para 11,25%, patamar em que estava antes do início, em abril, do atual ciclo de aperto monetário. Nessa hipótese, o juro real cairia a 5,5%, abaixo portanto da taxa australiana. Nominalmente, a Selic de 13% é, entre os 40 países pesquisados pela consultoria UP Trend para elaboração do ranking, apenas a medalha de bronze. Acima dela, estão os juros básicos da Turquia (16,5%) e da Venezuela (16%).

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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