Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Análise: Momento de choque nas expectativas

SÃO PAULO - O Banco Central não estará assumindo um erro de política monetária se, no Copom marcado para a semana que vem, derrubar a Selic em pelo menos um ponto percentual, de 13,75% para 12,75%, e sinalizar a intenção de persistir com cortes tão fundos quanto esse nas próximas reuniões. É certo e claro que o Copom já poderia ter reduzido a taxa em 0,25 ponto no encontro de 10 de dezembro.

Valor Online |

Só não fez o corte porque a pressão para fazê-lo era muito intensa. Preferiu sinalizar a sua inevitabilidade futura em comunicado estrambótico. Mas ninguém no mercado, muito menos ele, suspeitava da gravidade dos números que seriam conhecidos nesses primeiros dias de 2009. Ainda letárgico das festas de fim de ano, o mercado foi sacudido violentamente. O Copom pode, dada a sua folha pregressa e à luz dos fatos da época, eximir-se da acusação de ter-se equivocado ao manter a Selic em 13,75%. Por teimosia, perdeu a chance de planar acima das pressões e fazer a coisa certa. Mas, depois de tudo o que saiu na semana passada, errará feio se não derrubar logo a Selic. Precisa com urgência dar um choque nas expectativas deterioradas.

Tradicionalmente comedido, um espelho do conservadorismo da autoridade monetária, o mercado futuro de juros da BM & F entrou em pânico. As projeções de CDI estão derretendo. O contrato mais negociado, para a virada do ano, tombou na sexta-feira de 11,86% para 11,61%. A taxa estava em 13,14% um dia antes do último Copom. Já está no "preço" da curva futura de juros cinco quedas sucessivas de 0,50 ponto na taxa Selic, a partir de janeiro. Não se trata de "achismo" com base em modelos, mas de aposta de dinheiro graúdo. As apostas são de que a Selic retornará, já no Copom do dia 22 de julho, aos 11,25% que vigoraram antes do ciclo de alta da taxa promovido de abril a setembro do ano passado. O economista-chefe do ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, diz que esse corte de 2,5 pontos é o "piso" esperado para o ano.

Os dados divulgados na semana passada não eram previstos por ninguém. Não faziam parte nem dos cenários mais lúgubres. Relataram um mundo bem distante do quadro pintado pelas atas do Copom, preocupadas com demandas e repasses cambiais. Os números remontaram a períodos da história brasileira caracterizados por profunda crise. Foram eles: a produção industrial tombou 5,2% em novembro, acumulando em dois meses perda de 7,9%; a queda no consumo de energia, constatada pela ONS, é compatível com uma economia em recessão; a produção de veículos despencou 47% em dezembro; e o fluxo pedagiado de veículos pesados caiu 3,7%. Se a essas informações for agregada a hipótese de que a produção de papel e papelão, divulgada pela ABPO, ficará estável (caiu 3% em novembro), pode-se projetar, segundo os cálculos de Leal, uma queda na produção industrial de dezembro de 8,3%. Isso impressiona? Se este desmoronamento ainda não foi capaz de sensibilizar os corações mais empedernidos, o economista cita um número que pode dar uma idéia melhor da gravidade do surto recessivo que devasta o Brasil. Naquela hipótese de queda de 8,3%, a média móvel da produção industrial poderá ter caído 5,4%. Trata-se de queda histórica. Nos próximos debates sucessórios presidenciais, a oposição tucana poderá dizer que "nunca antes nesse país" a indústria terá retrocedido tanto.

Após os golpes traumáticos desferidos na semana passada, o que mais o mercado discute hoje é a intensidade e a concentração dos cortes da Selic. Não basta mais reduzir a taxa. Diante dos novos cenários de contração do PIB e carrego estatístico zero do produto de 2008 para o de 2009, a queda do juro tem de ser feita em poucos e incisivos trancos. A discussão de que decisões de política monetária demoram de seis a nove meses para serem transmitidas integralmente pelos canais da economia é baboseira acadêmica e não leva em conta a singularidade do momento.

Depois de projetar contração do produto médio de 3,6% por trimestre no período compreendido entre o quarto trimestre de 2008 e o segundo de 2009, o Credit Suisse informou ao mercado na tarde de sexta-feira que estava revisando de 0,75 ponto para 1 ponto sua expectativa de corte da Selic na semana que vem. "Entendemos que a forte desaceleração na economia, com melhora do balanço de riscos para a inflação, tornou a redução da Selic de 75 pontos-base uma opção excessivamente gradual para o início do afrouxamento monetário", diz relatório da instituição. Para reverter rapidamente a "deterioração ainda mais expressiva da confiança de empresários e consumidores", quanto mais concentrada a baixa total de 3 pontos pedida pelo CS melhor. O ideal seriam dois cortes sucessivos de 1,5 ponto.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG