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Análise: Modelo do BC põe IPCA abaixo da meta

SÃO PAULO - O pregão de juros futuros da BM & F está descolado dos demais segmentos do mercado financeiro. Os juros futuros ignoram as altas do dólar e a constrangedora volatilidade das bolsas de valores e só têm uma rota a seguir, a de queda.

Valor Online |

Isso ocorre porque, apesar dos tombos sofridos sobretudo desde meados de dezembro - de 13,20% para 11,50% -, as taxas ainda estão incompativelmente altas em relação ao centro da meta de inflação para este ano. Os modelos utilizados pelo Banco Central para projetar a inflação exigem a derrubada imediata da Selic. Caso contrário, o IPCA ficará muito abaixo do centro de 4,5% estabelecido pelo sistema de metas.

A consultoria MCM rodou o modelo de referência do BC e conclui que, na hipótese de a Selic permanecer em 13,75% até o final do ano e considerando dólar em dezembro a R$ 2,31 e variação de preços administrados de 5,5%, o IPCA fecharia 2009 acumulando alta de apenas 4,04%. Se o modelo tomar as variáveis assumidas pelo mercado - Selic de 11,63% em dezembro, taxa de câmbio de R$ 2,20 e preços administrados com variação de 5,10% - mesmo assim o IPCA continuará abaixo do centro da meta, alcançando 4,38%. Ou seja, a Selic terá de cair aquém de 11,60% para o IPCA ser ajustado à meta central.

A taxa prevista para a virada do ano cedeu ontem de 11,56% para 11,47% no mercado futuro da BM & F. O swap de 360 dias recuou de 11,69% para 11,47%. Como o BC não deve abandonar o seu gradualismo monetário, sobretudo quando o movimento requerido é de afrouxamento e não de aperto, o mercado descarta ação mais dramática e vigorosa. Ao invés de precificar um corte maior do que 0,50 ponto na reunião do Copom marcada para a semana que vem, o pregão prefere ampliar a duração do ciclo de cortes. O DI já trabalha com seis baixas sucessivas de 0,50 ponto e não, como seria melhor do ponto de vista da recuperação da atividade econômica, três reduções de 1 ponto. O BC não faria isso porque teria de desistir da atual estratégia de atuação monetária. Para golpear em três pontos a Selic teria de agir " preventivamente " , antecipando-se aos fatos, ou seja, agiria supondo que o repasse do " overshooting " cambial será modesto e que não haverá demanda para sustentar repiques. Tal atitude representaria uma guinada radical em relação ao que foi a tônica durante a maior parte de 2008, ano em que o Copom enfatizou a ação " tempestiva " , ou seja, em cima dos fatos concretos, sem antecipar nada.

Pela angulação oficial, os dados já divulgados este ano sobre o impacto da crise externa na atividade e na inflação não justificariam " tempestivamente " cortes mais arrojados na Selic. Será? Ontem surgiram mais dois informes desalentadores. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou retração de 0,6% no emprego industrial em novembro contra outubro. E o Sinalizador da Produção Industrial, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apontou para uma queda de 13,5% na produção física industrial no Estado de São Paulo em dezembro. Particularmente este último dado é de uma violência que pede uma atitude proporcional a ela, tempestiva ou intempestivamente, tanto faz.

A hora de agir monetariamente de maneira mais vigorosa é agora. Como o emprego industrial apresenta certo atraso em acusar a queda da atividade, o pior ainda não aconteceu em termos de ocupação de mão-de-obra. Em geral, como mostra estudo do IEDI, há uma defasagem da evolução do emprego com relação à da geração do produto. A produção industrial caiu cerca de 8% nos meses de outubro e novembro de 2008, mas a queda no número de ocupados foi de 0,7%. " Oque se pode esperar é que, infelizmente, os desdobramentos da retração da indústria sobre o emprego ainda estão por vir. O primeiro trimestre de 2009 não deve ser um bom período para a ocupação na indústria " , diz o IEDI. Mais uma razão, a seu ver, para que sejam aplicadas medidas mais eficazes de política econômica, a começar por reduções expressivas das taxas de juros.

O BC não teve ontem sucesso em segurar o dólar abaixo de R$ 2,30. O movimento no mercado interbancário voltou a ser significativo. Foram negociados US$ 3,61 bilhões. E, ao fluxo negativo, juntaram-se ontem manobras especulativas urdidas nos mercados de derivativos cambiais da BM & F para jogar o preço para cima. E apesar de o BC ter vendido US$ 835 milhões - sendo US$ 335 milhões em leilão direto de moeda e US$ 500 milhões em operação com cláusula de recompra -, a moeda fechou o dia cotada a R$ 2,3270, em alta de 1,35%. Mas, no acumulado do ano, o dólar ainda acumula baixa de 0,30%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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