Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Análise: Mercado não dá aval a excesso de cautela

SÃO PAULO - O mercado futuro de juros não avalizou ontem o excesso de cautela monetária demonstrada na véspera pelo Copom do Banco Central. Ao persistir reduzindo pesadamente as projeções de CDI, o mercado relevou as intenções do BC quando este informou que o corte de um ponto feito na Selic na quarta-feira era parte relevante do ciclo de afrouxamento monetário.

Valor Online |

O entendimento de que o Copom fará a totalidade dos cortes pretendidos apenas nas três primeiras reuniões do ano, perfazendo um acumulado entre 2,5 e 3 pontos percentuais, não prosperou no DI futuro. As taxas caíram acentuadamente não só porque o BC iniciou o ciclo de relaxamento com uma redução maior do que admitia o consenso dos analistas. Mas porque, depois de ter feito uma baixa de um ponto, seria difícil argumentar aos demais setores do governo, junto à Presidência da República, à indústria e aos sindicatos a necessidade de implementar um ritmo mais suave de cortes.

O retorno ao posicionamento gradualista anteriormente praticado pelo Copom tornou-se inconcebível daqui para a frente. Ele não poderá restringir o ciclo a dois cortes de um ponto e um terceiro, o último, de 0,50 ponto como faz crer a referência à " parte relevante " . Por parte relevante o mercado entende algo maior do que um terço do todo. Se ele começa a diminuir o juro com ritmo de 1 ponto e supondo-se que esse um ponto é maior que um terço do todo, este será menor do que três. O DI desconsiderou essa possibilidade ontem. As taxas caíram pesada e generalizadamente. O juro do swap de 360 dias baixou de 11,15% para 11,06%, revelando juro real (acima do IPCA de 4,91% projetado pelo Focus para o mesmo período) de 5,86%, novo piso da série histórica. O CDI previsto para a virada do ano cedeu de 11,17% pata 11,08%. A taxa para janeiro de 2011 recuou de 11,20% para 11,11%. E a estimativa para janeiro de 2012 caiu de 11,30% para 11,20%. Nessa curva futura de juros está implícito um ciclo de pelo menos 3,25 pontos. Ou seja, o mercado não " comprou " a proposta de política monetária contracionista implícita tanto no placar divergente de 5 a 3 como na limitação e concentração do movimento de baixa.

Para o diretor da NGO Câmbio, Sidnei Nehme, a menção à " parte relevante " não é cabível em face do dinamismo das economias externa e local. " O grau de incerteza e insegurança presente nas economias interna e externa não permite que os gestores de política monetária realizem qualquer afirmação definitiva, sendo sensato que assegurem sempre que permanecerão atentos ao desenvolvimento dos acontecimentos " , observa Nehme. O economista-chefe da Gradual Investimentos (uma das instituições que previa corte de um ponto), Pedro Paulo Silveira, se pergunta por que o BC faz tanta questão de demonstrar cautela. Trata-se da outra face da insistência de vários setores em colocar o desabamento do juro como providência exclusiva e cabal para acabar com a crise. O fato de a economia americana persistir em grave deterioração a despeito da redução do juro a zero mostra que a política monetária não é tudo. O juro brasileiro precisa continuar caindo fortemente, mas não só isso. " Muitos economistas, políticos e sindicalistas tentam vender a idéia vulgar de que o simples corte pode operar milagres. Isso é desonesto e transmite uma falsa idéia à população e aos trabalhadores . Estamos enfrentando, e vamos enfrentar, uma desaceleração econômica vigorosa no Brasil e não há como escapar disso no curto prazo. No entanto, há mais espaço para a queda da taxa de juros em 2009 " , diz ele.

No dia seguinte ao Copom, o dólar sofreu uma queda expressiva, desmentindo a idéia de que o Brasil precisa continuar pagando juros atraentes para evitar fuga de capital estrangeiro, sobretudo num momento como o atual, de desequilíbrio do balanço de pagamentos. A moeda desvalorizou-se ontem 0,89%, cotada a R$ 2,3310. A tendência é de baixa porque, como diz Nehme, os bancos estão se livrando de suas posições " compradas " à vista. Nos primeiros onze dias úteis do mês, o BC vendeu à vista US$ 1,73 bilhão. Como o déficit cambial desse período foi de US$ 2,19 bilhões e os bancos fecharam o ano passado com posição comprada de US$ 1,013 bilhão, decidiram se desfazer de metade delas e devem, agora, estar carregando perto de US$ 550 milhões. " Esta tendência de os bancos buscarem reduzir suas posições compradas, já que não há fatores limitantes de compra nos leilões do BC, indica que não vislumbram sustentabilidade no preço atual da moeda americana, ou seja, têm percepção de que o viés é de queda " , diz Nehme. Ontem, o BC colocou à vista US$ 213 milhões por taxa de R$ 2,3346.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico )

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG