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Análise: Mercado não crê em ´pressões´ e reduz juro

SÃO PAULO - Às vésperas do último Copom do ano, os juros persistiram ontem em pesada queda no mercado futuro da BM & F. Nada a ver com as supostas pressões palacianas.

Valor Online |

Desde 2005, sempre que se quis afrontar a autonomia operacional do Banco Central, a resposta do Copom foi invariavelmente no sentido oposto, o do endurecimento desnecessário da política monetária. Se tiver que baixar a Selic agora não será por causa da tentativa política de ingerência. Será por causa da queda da inflação corrente e da redução das expectativas de inflação. E as duas aconteceram ontem.

O IGP-DI de novembro desacelerou a 0,07%, para previsões que começavam em 0,25% e terminavam em 0,45%, comprovando o tênue repasse da alta do dólar para o atacado. E as expectativas de IPCA do boletim Focus caíram em bloco. O índice previsto para este ano cedeu de 6,35% para 6,20%. O estimado para o ano que vem declinou de 5,25% para 5,20%. E a taxa para os próximos 12 meses caiu de 5,44% para 5,37%. Todos os três ainda estão acima do centro da meta de inflação, de 4,5%, e, afora o fato de estarem abaixo do teto, o que importa mesmo é a sua tendência, claramente de baixa.

O declínio dos juros futuros não se deu apenas nos contratos mais longos. O CDI previsto para o final do ano caiu 0,04 ponto, para 13,44%. A taxa do contrato de maior liquidez, com vencimento em janeiro de 2010, recuou de 13,28% para 13,13%. E o juro previsto para janeiro de 2011 involuiu de 13,60% para 13,52%.

O economista Marco Aurélio Garcia, da Mag Consultoria, diz que se o Copom não cortar a Selic irá provocar imensa contração monetária. Pelo seu raciocínio, não dá para manter a Selic em 13,75% se o juro futuro para 180 dias (13,34%) for maior que o negociado para um ano (13,14%). " Será loucura se o Copom não reduzir a Selic. A queda terá que ser a necessária para que a Selic fique no mínimo 0,2 ponto inferior ao DI de 360 dias. Se for preciso de até 0,75 ponto " , adverte. Segundo o consultor, o que determina o grau de contração monetária não é taxa de mercado alta. Ela ocorre quando o juro básico é maior que a taxa negociada livremente pelas instituições. Nesse caso, a moeda sai do sistema privado e vai para o BC. Ou seja, o Copom não precisa subir a sua taxa básica para agravar ainda mais o quadro de desaquecimento econômico. Basta mantê-la.

É claro que o governo Lula quer preservar elevado o crescimento econômico para não perder popularidade nesses dois anos finais em que se definirá o sucessor. Por isso, " crescem as pressões para um afrouxamento nas políticas fiscal e monetária " , escreve o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore em relatório encaminhado ontem a clientes. Para ele, políticas que expandam gastos públicos e consumo são desaconselháveis. Os canais pelos quais se dá o contágio da crise externa não recomendam tais expansões. O Brasil é atingido de duas formas. O forte encolhimento de ingressos de capitais exige a redução dos déficits nas contas correntes, e provoca uma queda de preços internacionais de commodities, o que derruba o valor em dólares das exportações. " A queda no déficit em contas correntes impõe uma redução tanto maior dos investimentos quanto maior for o aumento dos gastos públicos ou o estímulo ao aumento do consumo das famílias. Este ajuste impõe, também, a depreciação cambial elevando a inflação " , diz.

Esse diagnóstico da consultoria AC Pastore & Associados é quase consensual entre os defensores de um pensamento mais conservador e clássico. Mas se distingue dos demais pela percepção de que a depreciação cambial ainda irá ter impacto negativo sobre a inflação. " Há uma grande probabilidade de que a depreciação cambial possa ser mais persistente e maior do que a admitida pelo consenso atual, o que elevará as pressões inflacionárias nos próximos meses " , diz. O BC terá que enfrentar o dilema de elevar a taxa de juros para fazer a inflação retornar à meta ainda em 2009, ou acomodar parcialmente uma parte do choque inflacionário, retornando à meta apenas em 2010. Só que 2010 é ano eleitoral.

Se a inflação acabará sentindo os efeitos da alta do dólar, está na hora de o BC agir com vigor não na área monetária, mas na cambial. A especulação dos " comprados " não deixou que a cotação do dólar caísse ontem, como seria natural, para sintonizar-se corretamente com a euforia provocada nos outros mercados pela anúncio feito por Obama do pacote de US$ 500 bilhões em investimento em infra-estrutura. O dólar fechou em alta de 0,88%, cotado a R$ 2,5010. O BC fez apenas um leilão de venda de moeda e colocou US$ 286 milhões. Muito pouco.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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