SÃO PAULO - Em sua quinta alta consecutiva, o dólar subiu ontem 0,72%, para R$ 1,6770. Nesse período, acumulou valorização de 3,39%. Do início de agosto para cá, a moeda registrou elevação de 7,29%. Numa comparação sensível ao bolso dos especuladores, em apenas 24 pregões a variação cambial foi equivalente a mais da metade do rendimento bruto pago pela Selic em um ano. Não é por outra razão que o carry trade está em baixa. Não dá mais para apostar contra o dólar e tomar recursos emprestados para comprar ativos que rendam o juro básico brasileiro. Os especuladores estão se retraindo em todos os mercados. A quebra ontem da Ospraie Management, uma das maiores gestoras de hedge funds especializados em commodities, colocou o mercado de sobreaviso.

A luz amarela cambial já está acesa. E é mais importante que qualquer outro sinal. Está todo mundo alavancado em real. Meu medo é que, se a cotação passar de R$ 1,70, haja um movimento muito forte de zeragem de posições. Não por fundamento. A economia brasileira está sólida. Mas por medo de perder dinheiro numa bola de neve. O BC pode ter de subir o juro não para conter demanda mas para evitar fuga de capital danosa à inflação e ao balanço de pagamentos , diz o gestor de importantes fundos multimercados nacionais. A solidez da área externa foi demonstrada pelo fluxo cambial de agosto. O saldo comercial conseguiu anular a saída financeira e a balança cambial foi positiva em US$ 1,944 bilhão, depois de amargar déficits de US$ 877 milhões em junho e de US$ 2,494 bilhões em julho.

A saída do kit Brasil implica em venda de ações, de títulos da dívida externa brasileira e reversão dos contratos de derivativos cambiais. Os estrangeiros ainda não interromperam sua saída da Bovespa. Nos últimos 24 pregões em que o dólar subiu 7,3%, a bolsa paulista caiu 10%. No mesmo período, o risco-país disparou 10,53%, de 228 para 252 pontos-base. E esses números indicam apenas correções naturais de preços, não são sinal nem do início de qualquer movimento mais intenso de fuga de ativos.

O fundo de commodity Ospraie, cuja carteira no fim de 2007 montava a nada desprezíveis US$ 3,8 bilhões, perdeu 27% somente no mês passado em apostas em petróleo, gás natural e produtos estruturados. Errou a mão e teimou em persistir comprado. Há muita gente na mesma ponta e o problema estará se houver uma concentração de desalavancagens. O Ospraie sai do mercado sem que o Lehman Brothers, desde 2005 detentor de uma fatia de 20% da gestora, tenha conseguido se livrar dessa participação.

O petróleo e as commodities caem, e o dólar sobe globalmente, por causa de fundamentos: o temor de desaceleração mundial, mais na Europa e no Japão, menos nos EUA, na China e no Brasil, mas todos serão afetados. Os mercados estão acordando do sonho bom do decoupling . Mas o que era uma reestruturação de carteira com base em alteração de fundamento pode se transformar em desalavancagem em massa para se evitar o contágio pernicioso de instituições prestes a quebrar. É aí que mora o perigo. Ontem, as ameaças conjuntas de três tempestades tropicais sobre a região do Golfo do México não conseguiram rever a queda do petróleo. O barril negociado na Nymex fechou cotado a US$ 109,35, em baixa pequena de 0,33%, mas em baixa.

Apesar do pessimismo manifestado ontem pelo Livro Bege do Federal Reserve - os gastos dos consumidores estão se reduzindo e a economia permanece frágil -, os EUA parecem bem mais robustos que outras economias desenvolvidas. Segundo o Departamento de Comércio, as encomendas à indústria cresceram 1,3% em julho, quando os economistas esperavam avanço de 0,9%. E a alta de junho foi revisada de 1,7% para 2,1%. Já a Europa.... O PIB da zona do euro caiu 0,2% no segundo trimestre deste ano depois de crescer apenas 0,7% entre janeiro e março.

No Brasil, que teima em trafegar na mão oposta à da contração global - segundo dados divulgados ontem pela CNI, o nível de utilização da capacidade instalada subiu de 83,3% para 83,5% em julho, atingindo o nível mais alto da série histórica -, o Banco Central não mede esforços em frear o crescimento econômico e deverá confirmar na semana que vem mais uma alta de 0,75 ponto na taxa Selic apesar dos ótimos números sobre a inflação. Ontem, a FIPE divulgou o IPC fechado de agosto, alta de 0,38%, ante 0,45% em julho. Mas a alta do dólar e a inquietação geral despertada pela situação dos hedge funds fizeram os juros subir ontem no mercado futuro da BM & F. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, avançou de 14,62% para 14,64%. A taxa para janeiro de 2011 evoluiu de 14,23% para 14,26%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.