SÃO PAULO - O juro real caiu ontem a 6,698%, menor nível da série histórica. Por sua confiabilidade, trata-se da taxa acima da inflação mais utilizada pelo mercado.

Ela considera o piso privado do custo do dinheiro - o juro do contrato de swap de 360 dias - e a projeção de IPCA 12 meses à frente do Boletim Focus do Banco Central. E ontem, por causa do choque dado pelo inesperado encolhimento da indústria, o swap cedeu abaixo de 12% ao ano. A taxa caiu de 12,08% para 11,99%. Comparativamente à inflação esperada para o mesmo período, de 4,96%, o juro alcança 6,698%. É o mais baixo desde que se pode calcular essa modalidade ex-ante de juro real, no começo de 2003, início do governo Lula. Nesse período, em contraposição ao piso conhecido ontem, o teto foi atingido no dia 14 de fevereiro de 2003, a 17,68%.

Há vários ângulos importantes de observação da taxa recorde de ontem. A primeira constatação é a de que, ao contrário do que acontece comumente no mundo, não foi batido por expectativa maior de inflação não correspondida por aumento de juro nominal. Ao invés disso, aqui as duas variáveis do cálculo estão em queda. Mas a taxa nominal vem recuando mais aceleradamente que a projeção de IPCA das cem instituições pesquisadas pelo Focus. A segunda leitura decorre da primeira: o mercado futuro de juros da BM & F desvinculou-se da política monetária do BC.

Dizer que o DI futuro está à frente do BC é a mesma coisa que dizer que o BC está, por excesso de conservadorismo monetário, atrás da curva. Terá de corrigir o erro no Copom do dia 21 e reduzir a Selic pelo menos de 13,75% para 13,25%. Mas este é um juro referencial de quem precisa de dinheiro por um mês. Quem pega por um ano já usa o swap de 11,99%. A terceira constatação objetiva é a de que o mercado maneja o juro real conforme os ventos soprados pela crise externa. E ignora a política monetária do BC. No dia em que o Lehman Brothers quebrou - o dia em que a crise efetivamente começou para o Brasil - o juro real ex-ante estava em 8,95%. Como o dólar disparava, pois temia-se fuga de capital externo (o que não ocorreu) a taxa avançou para o pico de 10,54% no dia 24 de outubro. Depois que os economistas não encontravam, nos dados reais, respaldo para as suas aflições inflacionárias, a taxa cedeu até alcançar 7,25% no dia 10 de dezembro, data do último Copom. Ou seja, o mercado estava exigindo que o BC já iniciasse o movimento de afrouxamento monetário. Mas, para mostrar independência, manteve a Selic em 13,75% e sinalizou queda futura. Era tarde, o mercado já tinha feito por si mesmo o movimento de corte.

Os números divulgados ontem sobre a produção industrial ampliaram o desconforto causado pelo percepção de que o BC está atrasado. Permaneceu impassível quando a atividade da indústria acusou queda de 2,7% em outubro, sinalizando o desastre que ocorreria no mês seguinte. Em novembro, caiu mais 5,2%, acumulando em dois meses um encolhimento de 8%. A indústria, sob impacto de pesada contração do crédito, retornou aos níveis de produção de maio do ano passado. " A restrição do crédito que se abateu sobre a economia brasileira foi dramática, seja pela escassez de financiamento externo, seja também pelo enorme conservadorismo com que as instituições financiadoras internas (exceção para o BNDES) repercutiram a crise externa " , diz relatório do IEDI. No entender do instituto, o BC não atuou bem em minimizar esses impactos sobre o crédito, " limitando-se a ampliar a liquidez do sistema bancário como se isso bastasse para reativar o crédito " . No entender do IEDI, como o crédito continua raro e muitíssimo mais caro do que há poucos meses atrás, medidas mais diretas e mais arrojadas, nos moldes em que os bancos centrais de outros países vêm realizando, são " requeridas para reabastecer a economia de seu financiamento corrente " .

Os investidores estrangeiros percebem uma diminuição do grau de aversão global a risco e, mesmo diante da queda do juro real brasileiro, continuam despejando dólar no mercado futuro da BM & F. Ontem, a moeda tombou 3,24% no pregão à vista, para R$ 2,18. Foi a quarta baixa consecutiva. Apenas nesse período a desvalorização foi de 9,73%. No futuro, a contrato para a virada do mês recuou 2,77%. O movimento de reversão das posições compradas carregadas liquidamente entre os pregões de dólar futuro e cupom cambial persistiu forte ontem. Os dados oficiais são de redução de US$ 1,28 bilhão nas posições compradas apenas na segunda-feira. Elas caíram de US$ 13,174 bilhões no dia 2 para US$ 11,892 bilhões no dia 5.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico )

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