SÃO PAULO - Deslocamentos muito acelerados das commodities, sejam de alta ou de queda, têm o mesmo efeito sobre os juros futuros: alta. Quando o petróleo e os alimentos estavam, até o mês passado, em disparada provocavam óbvia elevação de CDIs futuros pelo impacto negativo sobre os índices de inflação. Era isso que o Copom estava combatendo desde abril. Todo o discurso sobre inflação de demanda visava acobertar a necessidade de frear a economia e impedir repasses gerais das altas provocadas pelos choques de oferta. Em agosto, tudo mudou. As bolhas especulativas foram furadas pela percepção de que o mundo se desaquece. Cotadas em dólar, as commodities perdem preço nominal enquanto a moeda de referência fica mais forte frente ao euro e ao iene. A valorização do dólar afugentou hedge funds dos ativos (ações, bônus e moeda) de emergentes. É o que se vê no Brasil: enquanto a Bovespa despenca, o dólar sobe. E câmbio depreciado é sinônimo de inflação em alta. Resultado: juro futuro em alta.

O dólar no mercado à vista interno conheceu ontem sua sexta alta consecutiva. Fechou com valorização de 0,43%, cotado a R$ 1,6160, mas já testou o patamar de R$ 1,62. Nos últimos seis pregões, a moeda subiu 3,66%. Até o final do mês passado a aposta dos investidores estrangeiros era firme e pesada na tendência de apreciação do real e desvalorização do dólar. Tanto que, no dia 29, os hedge funds carregavam posição vendida em câmbio na BM & F de US$ 8,53 bilhões.

Ao longo dos primeiros pregões de agosto, a operação foi desmontada paulatinamente. Mas os fundos de fora não se contentaram em zerar suas posições vendidas . Segundo a última conhecida, referente ao dia 8, eles já estão comprados em US$ 2,31 bilhões. Estão agora ativamente apostando na desvalorização do real. O raciocínio é o de que, como as exportações brasileiras são muito dependentes das commodities, se a baixa recente for mesmo um estouro de bolha, inevitavelmente as contas externas, já deficitárias, serão incompatíveis com uma moeda tão forte e valorizada.

Por enquanto, o Banco Central finge que está tudo bem e continua fazendo seus leilões diários de compra de dólar. Mas se a fuga persistir terá de tomar providências no sentido oposto, passando a vender dólares. Não se deve ter muita ilusão sobre as reservas internacionais de US$ 204,25 bilhões. Na verdade, esse dinheiro não é do BC, nem do Brasil. Trata-se de um depósito feito pelos players (investidores financeiros, empresas interessadas em fazer investimentos produtivos, tomadores de crédito, exportadores, importadores, bancos) envolvidos com negócios interpaíses enquanto as condições foram favoráveis à venda de dólar e compra de real. Quando o quadro se inverte, eles vão quer seus dólares de volta. E o BC não tem a opção de não devolvê-los. Não se deve ter muita dúvida também sobre o destino dos swaps cambiais reversos.

A colocação desses contratos na gestão de Henrique Meirelles tinha como objetivo enxugar dólares do mercado futuro e, com isso, reduzir a velocidade de queda da moeda no mercado à vista. Para tanto, os bancos credores ganhavam a Selic mais a desvalorização do dólar. O BC só perdia. Os swaps reversos são os principais responsáveis pelos devastadores prejuízos contábeis amargados pela autoridade monetária. Agora, quando a situação se inverte, alguém acredita que os bancos, credores do BC em nada menos do que US$ 23 bilhões em swaps reversos, irão assumir perdas crescentes derivadas do fato de que a alta do dólar engole o ganho da Selic? Se houver sinais de overshooting cambial, a pressão será tão intensa que o BC se verá constrangido a recomprar esses swaps reversos.

Mesmo sem overshooting, o efeito mais danoso da alta do dólar já esteve presente ontem no mercado futuro de juros da BM & F, o pregão comandado pela turma mais bem informada do mercado, os tesoureiros de bancos, os gestores de fundos nacionais e os hedge funds estrangeiros. No exato momento em que as cem instituições pesquisadas pelo Focus começaram a reduzir suas expectativas de IPCA, as taxas dos DIs subiram com vigor.

A estimativa do Focus para a inflação acumulada este ano caiu de 6,54% para 6,45%, já abaixo do teto do sistema de metas de inflação. E o prognóstico para os próximos 12 meses recuou de 5,37% para 5,34%. Mesmo assim, o contrato mais negociado, para janeiro de 2010, subiu de 14,59% para 14,67%. O CDI previsto para janeiro de 2011 avançou de 14,28% para 14,40%. Em um pregão de cautela e baixa liquidez (giro de apenas 267 mil contratos), a alta da taxa longa denuncia o desmonte da operação especulativa conhecida como NDFs (Non-Deliverable Forward).

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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