SÃO PAULO - Os juros interromperam ontem uma série de oito altas consecutivas e fecharam em baixa no mercado futuro da BM & F. O CDI para janeiro de 2010 recuou de 15,47% para 15,36%. A taxa para um ano caiu de 14,72% para 14,70%. Os investidores deram mais relevância à inflação presente do que às expectativas futuras. Estas persistem piorando. A mediana das projeções de cem instituições pesquisadas pelo Banco Central por meio do Boletim Focus para o IPCA acumulado este ano avançou pela 15ª semana seguida, de 6,30% para 6,40%.

As instituições que mais acertam previsões, as Top 5 - em maio, para o IPCA, foram, pela ordem, Concórdia Corretora, Modal Asset, Banco Itaú BBA, UBS Pactual e Bradesco BBI -, subiram seus prognósticos de 6,46% para 6,60%. É primeira vez que a estimativa das Top 5 estoura o teto de 6,5% do intervalo superior de flutuação do sistema de metas. As expectativas para o índice referente a 2009 e os próximos 12 meses também registraram deterioração. Apesar disso, os juros futuros caíram porque prevalece o sentimento de que os índices que serão divulgados esta semana - a razão de, pelo menos, um por dia a partir de hoje - irão mostrar uma desaceleração do ímpeto de alta.

Os mais relevante dos índices da semana, o IPCA de junho, sai na quinta-feira, e o Focus divulgado ontem sustentou a previsão de perda de fôlego comparativamente ao IPCA-15. Enquanto este fechou junho com alta de 0,90%, o índice cheio não passará de 0,75%. As Top 5 prevêem 0,77%. Se for confirmado o freio, o BC poderá, na reunião do Copom do dia 23, cumprir os sinais de manutenção do ritmo de alta da Selic em 0,50 ponto. Para os altistas em DI, seria um equívoco. Não é porque o juro real subiu nos últimos meses, passando de 7,5% no início do ano para quase 9% agora, que o BC ganhou a batalha das expectativas.

Os analistas que defendem um choque de juros imediato argumentam que o IPCA Focus para 12 meses não chegava, como agora, ao patamar de 5,32% desde maio de 2005. Mas, naquela época, o swap de 360 dias rondava os 19% e o juro real encostava em 13%. Hoje, o swap está em 14,70% - por causa dos sinais de que a política monetária persistirá, para os padrões históricos brasileiros, acomodativa - e o juro real em 8,91%. Obviamente, este é o maior do mundo, mas incapaz, segundo os altistas, de frear a demanda. E o BC só tem poder de fogo sobre a demanda. Nada pode fazer a respeito da inflação de custos, importada, ou sobre a inércia de salários e preços administrados. Claro que, em última instância, se sufocar a demanda, as outras duas inflações (e a população brasileira) morrem de inanição.

A queda do petróleo ajudou a conter o impulso ao infinito dos comprados em taxa futura. O barril negociado em Nova York, após três pregões de sucessivos recordes, cedeu 2,70%, para US$ 141,37, por culpa do desaquecimento econômico europeu e dos acenos feitos pelo Irã de que pode ser mais flexível nas negociações envolvendo o seu programa nuclear. O barril rolou porque o dólar ensaiou fortalecer-se frente a um euro debilitado pela indústria alemã. Mas é o roto escarnecendo do esfarrapado, já que a economia americana não está mais saudável que a européia.

A Alemanha revelou queda de 2,4% na produção industrial em maio, quando a expectativa era de expansão de 0,5%. A coisa não está melhor fora da zona do euro. No Reino Unido, a atividade industrial amargou a pior desaceleração desde dezembro de 2005. Cedeu em maio, na margem, 0,8% e 1,6% sobre maio de 2007. Os dados começam a dar razão para os analistas que argumentam que a bolha das commodities e do petróleo será vazada pela perspectiva de recessão mundial no último trimestre do ano, antes de os BCs terem tempo de desfechar um choque de juros coordenado contra a inflação.

O estouro da bolha de petróleo pode ser adiada enquanto o barril não chegar a US$ 150,00, alvo predileto dos especuladores. A pesada queda de ontem decorreu de realizações de lucros desfechadas em pregão de baixa liquidez, já que muito investidor ainda não se recuperou do feriadão da Independência dos EUA. Prova de que a furo de ontem foi diminuto e facilmente vedável foi o comportamento do dólar exibido no mercado doméstico. A moeda cedeu 0,43%, para R$ 1,6010.

No dia em que a bolha das commodities arrebentar de vez, a moeda, as ações e os bônus brasileiros perderão a condição de ativos reais . Da mesma forma que um mundo com crescimento acelerado é favorável para as bolsas, moedas e títulos de países que produzem commodities como o Brasil, o mundo que temos pela frente e que caminha para uma forte desaceleração é negativo para as commodities, e para o Brasil , diz o economista da Pentágono Asset, Marcelo Ribeiro.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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