SÃO PAULO - Na parte que reflete a política monetária do Banco Central, o mercado de juros não se deixou arrastar pela onda de pânico que varreu ontem as finanças globalizadas sobretudo depois que os deputados rejeitaram o pacotão de Paulson-Bernanke. Os contratos com vencimento marcado para os próximos meses caíram no pregão de juros futuros da BM & F.

O contrato que será liquidado na passagem de outubro para novembro cedeu 0,01 ponto, para 13,62%. O CDI previsto para a virada do ano recuou 0,02 ponto, a 14,01%. Não obstante os alertas inflacionários contidos no Relatório Trimestral de Inflação divulgado ontem pelo BC, o mercado acredita que a janela que autorizava novos aumentos de Selic já se fechou.

Os contratos longos de CDI subiram em consequência da ojeriza externa ao risco. Embora não haja muita fuga de capital externo - afinal o giro de negócios no DI futuro foi irrisório, de apenas 539 mil contratos -, o juro longo sobe para encarecer operações de reversão de posições. Quando o hedge fund entra para aplicar em ativos que rendem a Selic, a taxa longa cai. Até o primeiro semestre de 2007, nos momentos de auge do carry trade de venda de dólar e compra de real, as operações externas exacerbavam a inclinação negativa da curva a termo de juros. Quando eles desmancham as operações, agravam a tendência positiva da curva desencadeada pelas circunstâncias externas. Mesmo assim, o contrato mais negociado, para janeiro de 2010, só tomou o viés de alta após a rejeitam do plano de salvamento dos bancos americanos. A taxa, que fechou sexta-feira em 14,66%, chegou a cair a 14,59% antes de encerrada a votação na Câmara dos Deputados. Depois, só subiu e fechou a 14,71%.

Por meio da queda dos CDIs curtos, o mercado enviou ao Copom o recado de que não aceita mais alta de juros. Em meio a uma feroz corrida mundial em busca de mais liquidez e menos risco, um discurso em prol do arrocho monetário como o exercitado ontem pelo Relatório de Inflação do BC, mais irrita do que diverte os analistas. Peça escrita antes da deterioração da crise, o Relatório foi divulgado num péssimo dia. Na Europa, terror puro, decorrente da constatação de que a crise atravessou o Atlântico: a Inglaterra vai estatizar o banco Bradford & Bingley, soterrado por hipotecas impagáveis; o belgo-holandês Fortis teve de receber aportes dos governos da Bélgica, de Luxemburgo e da Holanda; e um consórcio de bancos jogou uma bóia salva-vidas ao alemão Hypo Real. Nos EUA, a crise em duas etapas: antes do repúdio político ao pacote, o Citi recebeu ajuda governamental para comprar o Wachovia e o Mitsubishi Financial Group, maior banco japonês em capitalização, adquiriu 21% do Morgan Stanley. Enquanto isso, o BCB troveja a ameaça de que fará o que for preciso para trazer a inflação ao centro da meta.

Ao elevar as projeções de inflação para este ano e para 2009, o BC não agasalhou o consenso universal de que a desaceleração econômica global colherá o Brasil a ponto de alterar as estratégias de política monetária. Num momento em que no mercado pululam rumores sobre operações malsucedidas feitas por exportadores e bancos, em que se defende com aflição agônica novas medidas oficiais destinadas a ampliar a liquidez doméstica, a retórica do juro alto soa esquizofrênica. Esta não é uma boa ocasião para o BC manifestar suas inquietações relativas ao descompasso entre oferta e demanda e garantir que o principal risco inflacionário advém de fatores internos. " A expansão da demanda doméstica continua sendo fator predominante no balanço de riscos para a dinâmica inflacionária " , diz o Relatório. E a crise de liquidez com isso? O BC não precisa fazer mais nada para segurar o crédito. Ao contrário do que prevaleceu no primeiro semestre, a tarefa agora é operar em cima da falta de liquidez.

A arrancada do dólar não é, por enquanto, ameaça à inflação. Enquanto a moeda persistir volátil, as empresas não repassarão nada para os preços, sobretudo em época de retração do crédito. E a própria alta recente do dólar está sendo vista como passageira pois eivada de fatores especulativos. O dólar disparou ontem 6,21%, cotado a R$ 1,9660, mais por causa das tentativas de reversão de apostas ruinosas feitas na ponta de venda do dólar em pregões derivativos por exportadoras do que por fuga de estrangeiros. Quando essas posições forem totalmente zeradas, as maiores pressões de alta cessarão. Faltando um dia para terminar o mês, o dólar acumula só em setembro valorização de 20,24%. Trata-se de uma maxidesvalorização cambial feita pelo mercado. Qual o impacto da máxi nas reservas cambiais brasileiras? Elas subiram US$ 2 bilhões, de US$ 205 bilhões no dia 29 de agosto para US$ 207 bilhões no dia 26 de setembro.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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