SÃO PAULO - Os juros descreveram ontem no mercado futuro rotas opostas mas harmoniosas com os fatos. Os CDIs de curto prazo, com vencimento ainda no governo Lula, recuaram, refletindo a necessidade de o Banco Central insistir na flexibilização monetária, enquanto os longos avançaram por causa dos temores associados ao acirramento da crise externa.

Enquanto a taxa para a virada do ano caiu de 9,80% para 9,72% no mercado futuro da BM & F, o CDI previsto para janeiro de 2012 subiu de 10,64% para 10,72%.

O único motivo de alta do juro longo - o recrudescimento da crise americana - integra o rol de fatores que ajuda a derrubar a taxa curta. Se a crise aperta lá fora, as consequências sobre a economia brasileira sugerem o aprofundamento do corte da taxa Selic - já que o enfraquecimento de demanda não permite o repasse aos preços da valorização do dólar decorrente do aumento da aversão global ao risco. Mas o principal fator de estímulo à intensificação da baixa do juro básico procede mesmo da inflação anestesiada. As expectativas favoráveis sobre a inflação futura são nutridas pelos índices correntes muito baixos.

De três frentes inflacionárias vieram informes liberando o BC de suas costumeiras cautelas. O IGP-M de março apresentou uma deflação (0,74%) bem maior do que a esperada pelos analistas. Na grande maioria dos índices sobre a inflação contemporânea, quando há surpresa por parte dos economistas, ela é agradável. A inflação futura, pelo menos a que emerge das planilhas, também só cai. O prognóstico de IPCA para os próximos 12 meses do Boletim Focus recuou pela sétima semana consecutiva, distanciando-se ainda mais do centro da meta de inflação de 4,5%. Já estava abaixo dela, em 4,26%, e desceu agora para 4,19%. A estimativa de índice oficial de inflação para o acumulado do ano cedeu de 4,42% para 4,32% pela quarta semana em sequência. Esses números até poderiam encorajar os analistas a prever a continuidade do movimento de queda da Selic ao ritmo de 1,5 ponto no Copom do dia 29 de abril. Mas mantiveram o palpite hiperconservador segundo o qual a taxa recuará do atual patamar de 11,25% para somente 10,25%. Se confirmada, tal taxa representaria uma decisão voluntarista de provocar um abstruso e extemporâneo reaperto monetário na economia brasileira quando todo mundo só reduz juro. Uma decisão de diminuição da velocidade de baixa da Selic de 1,5 ponto para 1 ponto seria contraditória tanto com a deflação corrente quanto com as perspectivas futuras de índice acomodado abaixo do centro da meta. O Copom não pode, por vontade própria, desautorizar a parte inflacionária do Focus. Tal decisão também rasgaria outro pilar técnico do sistema de metas, o Relatório de Inflação.

O documento trimestral publicado ontem, até por acolher as visões do mercado sobre a inflação futura, não pode ser considerado um texto inovador. Mas, ao consolidar tudo o que se conhece sobre o assunto e ao dar nome aos bois - os modelos econométricos informam IPCA de 4% para este ano e o próximo -, a peça galvaniza as expectativas positivas enquanto distende os espíritos ortodoxos recalcitrantes, sempre dispostos a ministrar uma dose maior de juros, em qualquer circunstância.

Este clima impede que o DI futuro utilize a arrancada especulativa do dólar como pretexto para inquietações altistas. Os CDIs retrocederam ontem em dia de forte alta do dólar. Este fechou cotado a R$ 2,3320, com valorização de 1,7%. A razão não foi a agudização da crise financeira pela qual passam duas montadoras americanas. Isso foi apenas o gatilho usado pelos fundos estrangeiros " comprados " nos pregões de derivativos cambiais da BM & F - carregam posição líquida de US$ 9,42 bilhões - para fazer disparar o dólar à vista, com isto puxar para cima a " ptax " do dia (a taxa oficial de câmbio) e melhorar a lucratividade dos seus contratos. A " Ptax " de hoje, último dia útil do mês, será a que irá liquidar os contratos. O fato de o BC ter rolado somente US$ 3,98 bilhões do total de US$ 7,6 bilhões em swaps cambiais que irão vencer amanhã comprova uma ausência de demanda que desqualifica como genuína a alta do dólar. O cenário externo é pesado, mas não há fuga de capital ou ampliação da restrição ao crédito externo. Além das montadoras, os bancos podem precisar de recursos em montante acima do previsto pelas autoridades. E os comentários são de que não se deve esperar muita coisa da reunião dos países do G-20. A capacidade de aglutinação de políticas visando esforços conjuntos numa direção única, a do crescimento, ainda não foi arregimentada.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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