Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Análise: Investidor descrê de plano e rejeita dólar

SÃO PAULO - Os mercados inverteram completamente a direção e o sentido de suas inquietações. Saiu de cena a falta de dólar e de crédito nessa moeda que traumatizou as finanças globalizadas na semana passada.

Valor Online |

No seu lugar, apareceu ontem um fenômeno muito estranho, embora mais natural e condizente com a atual situação dos EUA que a escassez anterior: notou-se uma forte aversão à moeda americana. Os investidores passaram a rejeitar o dólar e partiram para a compra de ativos reais, como o petróleo e as commodities.

O barril negociado na Nymex disparou 15,66%, cotado a US$ 120,92. O índice CRB de 19 commodities saltou 3,86%. Para o estrategista-chefe da Pentágono Asset, Marcelo Ribeiro, "há sinais de que está ocorrendo um ataque especulativo contra o dólar via petróleo".

Por que o barril é a arma preferencial do ataque? Como o petróleo responde por cerca de 40% do déficit externo americano é possível tornar o dólar mais vulnerável e frágil por meio do combustível. Como o governo americano pode contra-atacar? "Da mesma forma que proibiram a venda a descoberto de ações, as autoridades deverão anunciar em breve uma intervenção no mercado futuro de petróleo", acredita Ribeiro.

Os mercados brasileiros acompanharam, boquiabertos, o tiroteio internacional. A corrida contra o dólar assustou e retraiu os "players" tradicionais do mercado de câmbio doméstico. A liquidez foi muita estreita. E o dólar limitou-se a acompanhar aqui a ojeriza mundial, dispensando o Banco Central de realizar leilões de linhas externas na moeda.

O dólar fechou em queda de 2,12%, cotado a R$ 1,7920. Os contratos de juros futuros negociados na BM & F seguiram o rumo indicado pela desvalorização da moeda americana. O CDI para janeiro de 2010 recuou de 14,83% para 14,80%. O swap de 360 dias cedeu de 14,74% para 14,69%.

Não faltam inquietações propícias a movimentos exagerados de defesa e ataque. Há uma enorme desconfiança sobre as chances de êxito do pacotão de US$ 700 bilhões destinado a salvar bancos e fundos.

Como a elite financista de Wall Street pode sustentar a euforia (sinônimo de confiança no futuro) se o caixão do capitalismo financeiro globalizado e desregulado, regido pelas expectativas racionais, pela a audácia operacional e pela criatividade infrene dos adoradores de bônus , não pára de receber novos pregos?

Na madrugada, veio a informação de que os últimos baluartes do mercado regido por si mesmo, os bancos de investimentos Goldman Sachs e Morgan Stanley, estavam implorando às autoridades a permissão para, doravante, trilharem o mesmo caminho da servidão ao qual hoje se submetem alegremente os bancos comerciais regulados e sustentados pelo Federal Reserve (Fed). A alegação era de que se permanecessem no "livre"-mercado, ao sabor da volatilidade da "mão invisível" , iriam acabar sucumbindo às expectativas racionais dos seus congêneres.

O segundo prego foi cravado pela percepção de que o plano de salvamento da dupla Paulson e Bernanke, pelo menos o que foi divulgado, tinha uma leveza insustentável, incapaz de permanecer incólume em sua passagem pelas mesas dos congressistas democratas.

Acolhedora demais, a Mãe de Todos os Resgates logo sofreu máculas. Um projeto democrata com alterações no texto original começou a circular já no final da manhã. No projeto alternativo, nada além do óbvio, mas todas mexidas antineoliberais, comprovando a velha tese monetarista segundo a qual, da mesma forma que não há almoço de graça, não há salvamento indolor: o governo deveria confiscar ações das instituições ajudadas na proporção equivalente ao socorro efetuado; estabelecer um limite máximo de remuneração aos executivos de forma a evitar alavancagens gananciosamente artificiais; junto com o programa, já seriam estabelecidas as instâncias de regulamentação e controle aos quais as firmas resgatadas do limbo seriam forçadas a reverenciar; os democratas não abrem mão da inclusão de garantias de ajuda aos mutuários com dívidas imobiliárias insuportáveis.

Além dos cacos democratas pespegados no plano, o mercado atormenta-se com dúvidas aparentemente comezinhas em relação aos aspectos práticos ignorados pelo texto original: os títulos pobres primários e colaterais seriam absorvidos, recuperados e os lucros retornariam ao contribuinte ou seriam simplesmente incinerados?

A nova estatal recuperadora de crédito passaria a ser acionista dos bancos, fundos e corretoras? Em que prazo e condições as ações seriam vendidas? Qual a capacidade de crédito das instituições depois de saneadas? Como o pacotão Paulson-Bernanke recende a artifício destinado a lançar uma ponte que garanta a sobrevivência do capitalismo financeiro até a posse do novo presidente, como ficará o capitalismo real até lá?

Os analistas não têm certeza se o volume de US$ 700 bilhões será suficiente para limpar as carteiras. Talvez uma estimativa mais confiável entre na casa do trilhão. Não é, de qualquer forma, um trocado qualquer. Tem o potencial de desestabilizar a economia real.

A perspectiva de crescimento voraz do déficit fiscal já está sendo suficiente para os mais atilados (ou mais paranóicos) começarem a vender dólares. A fuga do dólar gera o paradoxo do encarecimento das commodities e do petróleo justamente quando o efeito mais óbvio dessa crise toda é a desaceleração mais rápida da economia americana. Há ativo plenamente seguro?

Leia tudo sobre: dolar

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG