SÃO PAULO - O IGP-M desacelerou-se mais do que o mercado esperava. O ímpeto de avanço recuou de 1,98% em junho para 1,76% em julho. O prognóstico dos economistas se aproximava mais de 1,80%. A descompressão inflacionária derrubou os juros futuros longos e manteve praticamente estáveis os mais curtos. O contrato para a virada do ano, ontem o mais negociado, permaneceu em 13,70%, enquanto o DI para janeiro de 2011 cedeu de 14,65% para 14,55%. A resistência dos juros curtos ocorre por causa da política monetária do Banco Central, mais severa desde a reunião do Copom realizada na semana passada. A ata desta reunião será divulgada hoje. Como a inflação corrente está em franca desaceleração e como isso afeta positivamente às expectativas futuras, o mercado já acredita que o BC não irá se comprometer com a manutenção do novo ritmo de alta de 0,75 ponto na reunião de 10 de setembro.

O fato é que a inflação presente começou a despencar. Para o economista-chefe da SLW Asset, Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, o IPCA de julho vai vir próximo de 0,50%, quando o mercado projeta 0,65%. Vai ser outra grande surpresa. O de agosto também. O IPCA do mês que vem caminha para algo próximo de 0,20%. No atacado agrícola vamos ver deflação muito em breve , prevê Carlos Thadeu. É claro que o BC não pode fazer política monetária olhando apenas para a inflação baixa nos meses de agosto e setembro. Ele está mirando a taxa prevista para 2009. E esta depende das expectativas, da demanda, do câmbio e dos preços administrados altos por causa dos IGPs elevados de 2008. Apesar dessas incertezas todas, o Copom pode ter-se excedido ao apressar o passo monetário justamente às vésperas de uma melhora inflacionária.

A ata que será publicada hoje vai explicar as razões do aumento da velocidade. Vai elucidar sobretudo porque os documentos anteriores (a ata do Copom de 4 de junho e o Relatório de Inflação) transmitiram a idéia de que não haveria necessidade de se apressar a condução da política monetária, pois o gradualismo faria o mesmo efeito positivo sobre as expectativas de 2009. Há muita curiosidade para se saber se o termo tempestivo será preservado na ata. Embora tenha o significado de oportuno, no momento certo, transmite ao mercado a sensação de que o BC não irá contemporizar, ou seja, difunde a sensação de ritmo mais frenético. Os economistas que acompanham preços estranharam a aceleração. Se fosse feita na reunião de junho, tudo bem, o cenário inflacionário era de fato assustador. Mas, na de julho, não. Já havia indícios de trégua.

Não está dado que o próximo Copom (10 de setembro) subirá a Selic de 13% para 13,75%. Pode voltar, sem constrangimentos, ao compasso de 0,50 ponto. Para Carlos Thadeu, tanto a decisão de aumentar a taxa em 0,75 ponto quanto a ata estarão defasadas em face do novo cenário inflacionário. O BC trabalhou, no seu Relatório de Inflação, para influenciar toda a curva futura de juros e esse efeito gradual é o que importa para os canais de transmissão da politica monetária , diz ele.

A curva futura de juros está inclinada positivamente até janeiro de 2010, a 14,84%. Depois, inclina-se negativamente, para 14,55% em janeiro de 2011 e 14,14% em janeiro de 2012. Isso tem a ver com a expectativa de que o atual ciclo de aperto monetário será curto e de que diminui a aversão externa ao risco. Se a ata indicar hoje, por meio de retórica feroz, um prolongamento do aperto pode estressar a parte longa da curva, mas esse efeito será anulado se o petróleo retomar a baixa e reduzir a aversão internacional. Ontem, a curva não foi abalada pela alta de US$ 4,58 do barril cotado na Nymex, a US$ 126,77. O IGP-M e a alta de 1,63% do índice Dow Jones se sobrepujaram ao petróleo.

O dólar aprofundou sua baixa no mercado doméstico. As boas notícias vindas de fora e a recente ampliação do diferencial entre o juro doméstico e o internacional aumentaram o fluxo de capitais externos para a BM & F. Às vésperas do vencimento dos contratos de dólar futuro e cupom cambial, as posições vendidas líquidas mantidas por investidores estrangeiros cresceram de US$ 6,99 bilhões no início da semana para US$ 8,53 bilhões. Nos EUA, surgiram duas boas notícias. Segundo a pesquisa da ADP, consultoria privada da área de emprego, foram criados em julho 9 mil postos de trabalho nos EUA, quando o mercado esperava corte de 60 mil vagas. E o Fed estendeu até janeiro a vigência dos seus programas de empréstimos emergenciais às instituições de Wall Street. A ajuda deveria se encerrar em meados de setembro, mas o mercado ainda não pode caminhar por suas próprias pernas.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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