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Análise: Indústria e petróleo sugerem desaperto

SÃO PAULO - Os dados divulgados ontem sobre a produção da indústria brasileira e o desabamento do petróleo e das commodities tornam urgente a revisão pelo Banco Central de sua intenção de persistir apertando a política monetária em ritmo vertiginoso. Sem a indução do BC, o mercado futuro de juros não fará sozinho o ajuste das projeções a uma realidade inflacionária bem mais benigna. Não obstante os índices de inflação corrente, de consumo e atividade mais comportados, a seis dias úteis da próxima reunião do Copom Henrique Meirelles parece ter mandado ontem ao mercado um sinal de reforço. O enaltecimento triunfante que fez do sistema de metas de inflação soou aos players como um recado de que, no dia 10, o Comitê não irá reduzir a velocidade de alta da Selic.

Valor Online |

Tudo autorizaria o retorno de um compasso mais brando de alta, de 0,50 ou mesmo de 0,25 ponto, mas o Copom teimará no 0,75 ponto, elevando o juro básico de 13% para 13,75%. E a palavra de Meirelles vale mais que a atividade industrial, a queda do petróleo e a baixa da inflação corrente. Tanto é que os juros futuros subiram ontem. O CDI negociado para a virada do ano no pregão de DI da BM & F subiu de 13,87% para 13,88%. A taxa para janeiro de 2011 avançou de 14,16% para 14,23%. E, para janeiro de 2012, de 13,82% para 13,91%.

Ninguém no mercado toma um dado isolado para fechar suas apostas nos mercados futuros. Se alguém segregasse o crescimento de 1% verificado na produção industrial brasileira em julho comparativamente ao mês anterior e comparasse com a expectativa dos economistas (medianas entre 0,55% e 0,70%), poderia concluir que o BC está coberto de razão no seu diagnóstico de que o país cresce acima de sua capacidade. Ou seja, o dado ratificaria o bordão segundo o qual o juro não irá parar de subir enquanto a demanda for superior à oferta. Aberta em seus pormenores, a pesquisa do IBGE exibe outra realidade.

Nas duas pontas, a atividade é favorável a uma suspensão imediata do ciclo de elevação da Selic iniciado em abril. Na ponta do consumo, o estudo constatou uma queda, na margem, de 0,3% na produção de bens de consumo. Em termos anuais, aumentou 6,1%, mas os duráveis registraram recuo de 5,2% e os semi-duráveis, estabilidade. Parece um cenário de consumo bombando? De jeito nenhum. A indústria cresce mesmo é pela outra ponta, esta também indicando uma descompressão inflacionária.

O crescimento da indústria se escorou nos setores meio (bens de capital e bens intermediários) e não tanto nos setores fim (bens de consumo). Para os altistas em juros, isso significa que se prepara as condições para um renovado crescimento no futuro. E isso é o que o Copom menos deseja que aconteça, ou seja, o alvo do aperto monetário é justamente deprimir a indústria lá no futuro. Não está conseguindo, até porque a política monetária se transmite letargicamente pelos canais de produção. Tanto que o setor de bens de capital teve aumento de sua produção em 1,2% com relação a junho com ajuste sazonal e nada menos do que 22,3% com relação a julho do ano passado.

E continua acelerando. Isso é mau? Melhor composição para o crescimento da indústria, impossível, pois a dianteira de máquinas e equipamentos é o que, após um certo período de três a seis meses em termos médios, irá gerar a capacidade de produção adicional que a economia precisará para acomodar sem inflação o crescimento da demanda , enfatiza o IEDI. Ou seja, a indústria está forjando hoje as condições para o crescimento da oferta que, em 2009, trará o IPCA para o centro da meta de inflação sem que o Copom precise se dar ao incômodo de reapertar o cinto a cada 45 dias.

O consenso de que o Copom manterá na semana que vem o ritmo de alta em 0,75 ponto não deve ser desfeito nem se, na sexta-feira, o IPCA fechado de agosto vier abaixo do 0,31% previsto pelos economistas, após 0,53% em julho. Nem se o petróleo persistir afundando. Ontem, o barril negociado no pregão viva-voz da Nymex tombou US$ 5,75 em relação à sexta-feira, cotado a US$ 109,71. O CRB caiu 3,36%. Os especuladores internacionais, que na segunda-feira aumentaram de US$ 1,58 bilhão para US$ 3,05 bilhões suas posições vendidas em derivativos cambiais na BM & F, terão de rever suas estratégias. Sem liquidez, o dólar não consegue se livrar da tendência de alta vinda de fora. A valorização da moeda foi impressionante: subiu ontem 1,15%, para R$ 1,6650. Pulou do patamar de R$ 1,64 para o R$ 1,66, sem passar pelo teste do R$ 1,65.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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