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SÃO PAULO - Os mercados globais recaíram ontem no pesadelo do mundo real após o devaneio da véspera, insuflado pela esperança de que o democrata Obama faria o que o republicano Bush não havia conseguido: uma faxina rápida e indolor nas carteiras apodrecidas. O fato é que, se esta miragem ficou distante, a economia americana continua piorando mais do que o esperado pelos catastrofistas.

Três indicadores fresquinhos sobre os EUA passaram por cima da euforia da quarta-feira: a venda de casas novas desabou 14,7% em dezembro, as encomendas de bens duráveis caíram 2,6% também no mês passado e o número de seguro-desemprego subiu 159 mil na semana finda em 17 de janeiro, para 4,776 milhões. Trata-se do maior patamar desde que o governo iniciou esse levantamento, em 1967. O que mais aflige os mercados é que, enquanto a economia americana se decompõe no meio da rua, os políticos não conseguem agilizar as medidas.

Pelo andar do cortejo congressual, não se deve esperar por nenhum plano econômico, fiscal ou de salvamento de instituições antes do dia 15. Ninguém no mercado se sentiu ontem confortável para genuinamente comemorar a aprovação pela Câmara dos Deputados, na noite de quarta-feira, de pacote no valor de US$ 819 bilhões. Além de ter sido aprovado sem a anuência de nenhum dos 177 republicanos presentes à votação, as medidas não são definitivas. No Senado, transita um pacote paralelo de corte de impostos, no valor de US$ 68 bilhões, que, depois de aprovado, irá se aglutinar ao pacotão da Câmara. As duas casas irão, então, discutir a versão final. Isso tudo é apenas a parte fiscal. E a limpeza salvadora? Terá de ser discutida separadamente. E esta proposta ainda nem chegou ao Congresso.

A boa vontade manifestada pelo Federal Reserve e pela nova gestão do Tesouro esbarra na morosidade política. Diante disso, os mercados não têm motivo para " precificar " uma melhora a não ser que seja meramente especulativa, como foi o caso da ocorrida anteontem. Os grandes investidores voltaram a vender papéis de risco e a concentrar suas aplicações no dólar.

Na véspera do vencimento dos contratos futuros de dólar negociados na BM & F, cujo predomínio ainda é exercido pelos hedge funds - embora as suas posições " compradas " tenham caído de US$ 13,02 bilhões no dia 27 para US$ 12,114 bilhões no dia 28 -, a atuação mais pesada do BC não evitou que o dólar fechasse em alta de 0,83%, cotado a R$ 2,2940. Ele vendeu, em duas intervenções, uma no mercado futuro e outra no à vista, um pouco mais de US$ 1 bilhão. A operação mais volumosa envolveu a colocação de US$ 675 milhões no chamado leilão de linhas externas (leilão de venda conjugado com outro de recompra, destinado a travar uma determinada taxa de juros aos exportadores). No leilão de ontem foram feitas somente quatro propostas. A segunda operação foi realizada no mercado à vista por meio de leilão direto de venda dólares sacados das reservas internacionais. A de ontem chegou a US$ 345 milhões.

A ata do Copom ficou em segundo plano, até porque não quis se comprometer com um ritmo específico de declínio do juro. Ao enfatizar as incertezas sobre os rumos das principais variáveis macroeconômicas - todas elas decorrentes do contágio da crise externa e da possibilidade de repasse aos preços da depreciação cambial - , passou ao mercado mensagem de cautela. Se não tem certeza de manutenção do compasso de queda da Selic em um ponto por reunião, não é o DI futuro que terá. A possibilidade de o BC reduzir a velocidade de baixa para 0,75 ponto provocou movimento de alta dos juros futuros. O pregão ignorou o IGP-M fechado de janeiro, cuja deflação de 0,44% foi a maior desde setembro de 2005. O indicador aprofundou a deflação constatada em dezembro (0,13%) e superou as expectativas, de queda de 0,30%.

A taxa do swap de 360 dias subiu de 11,21% para 11,27%. O CDI previsto para a virada do ano avançou de 11,23% para 11,27%. Os contratos mais longos também subiram. A taxa para janeiro de 2012 passou de 11,65% para 11,91%. A ata foi clara em mostrar as perplexidades do BC. As divergências entre os diretores ficaram bem nítidas. Mas trata-se de um documento de transição. Os fatos atuais, as perspectivas econômicas e o estado de ânimo dos agentes econômicos dão mais razão à ala majoritária de diretores que prefere cortes de um ponto. O economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon, acredita que o próximo corte de juros, a ser feito no dia 11 de março, será também de um ponto. Ele revisou de 11,25% para 10% a projeção de Selic para o final do ano.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)