O real se valorizou 36% em relação ao dólar em 2009. Um recorde absoluto, superior às duas outras moedas que também ficaram mais caras em relação à moeda americana: o rand sul-africano (27%) e o peso chileno (21%).

Mas o real também encareceu em relação ao euro. Só que, ao mesmo tempo, o euro também teve uma valorização em relação ao dólar, o que parece irracional. Desde o início do ano o bilhete verde perdeu 20% do seu valor para o euro, enquanto a moeda europeia perdeu 29% em relação ao real. Muito complicado! Essa valorização do euro ante o dólar é paradoxal.

Mas o fato é que, se o real foi apoiado pela brilhante atuação do Brasil durante a crise, pela solidez do seu sistema bancário, um crescimento esperado de 5% em 2010 e a atração que o País exerce sobre os capitais estrangeiros, nada isso se observa nos corredores do euro. É claro que a Europa sai da crise, mas muito lentamente. Seu crescimento continua débil e o desemprego, na França por exemplo, bate e baterá novos recordes nos próximos meses.

Assim, mesmo se euro e real estão na mesma posição de força em relação ao dólar, os efeitos dessas valorizações não são os mesmas para cada uma das duas moedas. No caso do euro, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, grita entusiasmado que "Somos os mais fortes!". O que é não é seguro. Em todo o caso, "somos mais fortes", talvez não signifique que sejamos os "mais astutos".

É certo que o recuo do dólar é explicado pelo colapso da economia americana, sobretudo depois da crise. Obama injetou somas gigantescas de dólares na economia, e isso enfraqueceu a moeda. Há rumores de que "as máquinas de impressão de cédulas" recomeçaram a trabalhar nos Estados Unidos.

São esses fenômenos normais resultantes do simples funcionamento da mecânica monetária mundial? Ou os americanos não teriam dado uma ajuda nisso? O certo é que, no momento, essa fragilidade dá algum fôlego para a economia americana sufocada.

Talvez esse seja um efeito colateral - ou um estrago colateral - da globalização. De fato, num mundo onde as barreiras alfandegárias praticamente desapareceram, o único instrumento que um país dispõe para se proteger é a paridade monetária. Esse seria o cálculo americano.

A fraqueza do dólar aumentou em 20% a capacidade competitiva dos produtos americanos, permitindo que o país continue exportando, apesar da crise. E isso é uma artimanha clássica. Uma moeda fraca facilita a exportação, enquanto pune as importações (os fabricantes do Airbus prefeririam que o euro fosse menos forte).

Além disso, e sempre por causa da globalização, o dólar fraco oferece outra vantagens para a economia americana: lembremos que um dos efeitos da globalização foi lançar no mercado de emprego centenas de milhões de indianos e chineses ganhando dois ou três dólares por dia.

Como as indústrias dos países ricos, onde os empregados são bem remunerados, podem competir com esses países novos? Portanto, uma consequência automática da queda do dólar foi reduzir o custo do trabalho em território americano. Fala-se que algumas fábricas americanas que operam em países distantes já estariam pensando em se repatriar.

Assim, o recuo do dólar e a valorização injustificada do euro, longe de ser uma boa notícia para a Europa, devem ser recebidos como um sinal alarmante. O estranho é que a Europa não parece se preocupar com isso.

A explicação se deve sem dúvida ao caráter singular da maior potência da União Europeia, a Alemanha. Esse país desfruta de uma tal reputação, de uma rede de indústrias de exportação tão vasta, que continua a exportar ativamente, apesar de um euro caro. A Alemanha, assim, não faz nada para acordar os banqueiros de Frankfurt. E o euro continua a sua escalada.

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