SÃO PAULO - O furo na bolha de commodities foi ampliado ontem. O petróleo caiu 3,95% em Nova York, para US$ 129,29. Em apenas três dias tombou 10,95%. O índice CRB, cuja carteira é composta por 19 matérias-primas, recuou ontem 2,69%, ampliando a desvalorização no mês para 6,51%. O sintoma mais evidente de que os especuladores estão pulando fora das commodities é que já começou o jogo de esconde-esconde das verdadeiras razões. Os operadores são peritos em escamotear a realidade, inventam uma camuflagem vistosa destinada a iludir, enquanto revertem posições. Segundo eles, o petróleo está caindo porque o dólar está subindo e amainou a tensão geopolítica que cerca o Irã. Mentira. O fato é que não dá mais para ignorar as sombrias perspectivas para a economia americana e a mundial a partir do último quadrimestre do ano. Não haverá demanda para sustentar os preços atuais.

Os reflexos sobre o Brasil dependerão do tamanho do furo ao cabo da desespeculação mais intensa. Não será nada bom que as commodities metálicas e agrícolas percam preço aceleradamente a ponto de anular o superávit da balança comercial. Como as transações correntes do balanço de pagamentos já estão negativas, um saldo comercial igualmente deficitário poderá provocar inquietantes valorizações do dólar. A preocupação antiinflacionária do Banco Central não será mais a exótica e abstrusa inflação de demanda , mas a tradicional inflação de custos brasileira derivada de um não menos clássico constrangimento cambial. Haja choque de juros.

Uma pequena amostra desse cenário tenebroso já foi dada ontem: o descolamento negativo da Bovespa. Enquanto o Dow Jones disparava 1,85%, o índice paulista tombava 3,14%. Por quê? Venda de ações das coqueluches Petrobras e Vale fortemente vinculadas a commodities. Os fundos externos mais paranóicos já estão vendendo Brasil por causa do estouro da bolha. Vendem e saem do pais. Tanto que o dólar negociado no mercado interno fechou ontem em alta de 0,18%, cotado a R$ 1,5990. Só não se valorizou mais porque os bancos estão queimando posições compradas à vista. Quando perceberem que isso pode ser um mal negócio, a moeda dispara.

O economista Marcelo Ribeiro, da Pentágono Asset, observa que, no início da crise, era o mundo financeiro que afetava o mundo real . Agora é o mundo real ou economia real que está afetando os bancos médios americanos. Um mundo irá contagiar negativamente o outro pelos próximos dois anos. A hesitação do Federal Reserve (Fed) entre combater a inflação ou atacar o potencial recessivo pode ser decidida pelo mercado de treasuries. Cresce a percepção entre os agentes do mercado de que a inflação está saindo do controle e o próprio mercado pode fazer um ajuste forte na curva de juros, retirando a decisão entre inflação e crescimento das mãos de Ben Bernanke. Também acho problemática essa proibição de shortear instituições financeiras nos EUA. Compreendo as motivações, mas em se tratando do grande mercado de capitais do mundo, isso pode gerar ansiedade em outros mercados, que podem passar a temer a adoção dos mesmos mecanismos, o que pode contaminar os ativos emergentes, tornando o cenário atual ainda mais volátil e incerto , diz o economista.

No mercado futuro de juros da BM & F, o comportamento foi heterogêneo: enquanto os contratos da parte curta da curva subiram, os da porção longa declinaram. O CDI para a virada do mês subiu de 12,38% para 12,42% e o previsto para a virada do ano avançou de 13,41% para 13,43%. Já o contrato mais negociado, para janeiro de 2010, caiu de 15% para 14,94%, e o CDI para janeiro de 2012 cedeu de 14,88% para 14,76%. A alta do juro curto já embute a certeza dos tesoureiros de bancos, comprados em taxa, de que o Copom irá ampliar a velocidade de alta da Selic para 0,75 ponto na reunião do dia 23.

Mesmo assim, o juro para um ano caiu. Piso das operações de crédito, o swap de 360 dias recuou de 14,49% para a 14,48%. Trata-se de um queda não desejável do ponto de vista da política monetária. O BC vinha conseguindo, na base de discursos ameaçadores e atas enfurecidas, puxar os juros privados para cima sem ter que acionar diretamente a Selic. Acabou o efeito? O fato é que o aumento na percepção de risco em ficar dado em prefixado, ou seja, em assumir posições vendidas em taxa, provocou uma curva longa mais inclinada e relativamente premiada, o que atuou momentaneamente a favor do BC, pois isso tem impacto direto na atividade econômica , diz o especialista independente Francisco Vasconcellos.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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