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Análise: Fuga de estrangeiro dispara juro futuro

SÃO PAULO - Os juros dispararam ontem no mercado futuro da BM & F e, mesmo assim, o Tesouro Nacional não cancelou a venda primária de títulos públicos. Ele colocou o equivalente a R$ 2,076 bilhões, sendo R$ 1,072 bilhão em LFT, papéis pós-fixados, e R$ 1,004 bilhão em LTN. Ao aceitar vender os títulos, o Tesouro sancionou a escalada das taxas. Como as carteiras de fundos de investimentos DI e de renda fixa precisam ser marcadas a mercado , as novas LFT podem provocar perda de rentabilidade e, eventualmente, até cotas negativas. Enquanto alguns gestores estavam revoltados com o Tesouro, outros se mostravam conformados à realidade. Afinal, depois que as carteiras dos fundos passaram a incorporar CDB que rendem de 103% a 104% da variação do CDI, o Tesouro não tinha como evitar uma abertura de taxa , ou seja, um acréscimo de remuneração para tornar os títulos públicos mais competitivos.

Valor Online |

Normalmente, em dias de tresloucado frenesi no mercado, como ontem, o Tesouro se recusa a fazer operações primárias, na esperança de que as instituições possam em breve recuperar o juízo. A alta sofrida ontem pelos DIs não tem mesmo muita correlação com a inflação futura ou com a política monetária esperada para o médio e longo prazo. Mas tudo a ver com o desmonte de posições especulativas remuneradas pela Selic e a variação cambial negativa. Com a súbita valorização do dólar ameaçando engolir o ganho pago pela Selic, os especuladores tratam de zerar todas as posições cambiais mantidas nos pregões de derivativos da BM & F. No caso do Non-Deliverable Forward (NDF) a última ponta do processo é o juro futuro. Na entrada dos recursos externos, o CDI cai, na saída, sobe. Foi o que aconteceu.

As taxas longas foram as que mais subiram no mercado futuro da BM & F. Enquanto o CDI previsto para a virada do ano avançou de 13,88% para 13,92%, o contrato para janeiro de 2010 evoluiu de 14,64% para 14,82%. O vencimento relativo a janeiro de 2011 passou de 14,26% para 14,55%. A taxa do swap de 360 dias, considerado o verdadeiro piso do custo do dinheiro da economia, mais do que a taxa Selic, pulou de 14,56% para 14,71%.

Se quiser sancionar essas elevações de juros, o Copom não poderá, na semana que vem, se limitar a manter o ritmo de alta do juro básico no mesmo 0,75 ponto da reunião passada. Terá de apressar o passo para pelo menos 1%. Se fizer isso, não estará sancionando tão-somente um nível de juro especulativo, por refletir a fuga dos especuladores, mas agindo para piorar as expectativas de inflação. A alta do dólar espelha uma condição anômala - a desmontagem de toda sorte de operações destinadas a ganhar a valorização do real e a rentabilidade da Selic - derivada do fortalecimento do dólar frente ao euro e ao iene e da cobertura de prejuízos sofridos por instituições globais nos mercados de commodities. Não há um ataque especulativo contra o real. Nem se imagina que o dólar, que fechou ontem a R$ 1,7220, possa passar de R$ 1,75, comprometendo os esforços antiinflacionários.

As turbulências recentes só reforçam a necessidade de o BC diversificar suas armas contra a inflação. A busca frenética por uma demanda mais enfraquecida, que não sancione aumentos de preços ao consumidor final, utiliza apenas o instrumento taxa de juros. Face a esse arsenal limitado, podem ocorrer exageros na alta se a economia não responder adequadamente ao freio do BC. Por isso, aumentam as sugestões para a utilização de um ferramental menos ortodoxo que o juro alto.

Para o economista Paulo Gurgel Valente, da Profit Consultoria, o crédito continua em grande expansão e os prazos mais longos de financiamento dos bens duráveis fazem as prestações se manterem acessíveis à grande parte da população, apesar da elevação dos juros, mantendo a demanda aquecida. O BC e o Conselho Monetário Nacional deveriam restringir os prazos de crédito para ajustá-los ao período aproximado da depreciação dos bens. Um automóvel, por exemplo, poderia ser financiado em no máximo quatro anos , diz Valente. Quanto aos bens de consumo não duráveis, como alimentos, parece ao consultor perigoso e inflacionário o parcelamento feito dos supermercados em três vezes.

Estudo realizado pelo professor de economia da UNB, José Luis Oreiro, e pelo economista Luciano D ? Agostini (pós-graduando em Desenvolvimento Econômico da UFPR), mostra que o risco de deterioração do quadro inflacionário está centrado no comportamento do crédito bancário. Por isso, seria mais eficaz do ponto de vista do controle inflacionário a introdução de medidas administrativas de contenção da expansão do crédito do que aumentos cavalares na taxa nominal de juros.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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