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Análise: Fraude de Madoff amplia aversão global

SÃO PAULO - O escândalo Madoff degradou o ambiente financeiro global, ampliou a aversão ao risco e respingou nos mercados brasileiros. Investidores institucionais venderam ativos brasileiros para auxiliar no trabalho de desalavancagem mundial das operações ruinosas.

Valor Online |

Foi por isso que a Bovespa caiu 2,68%, o dólar subiu 0,97%, para R$ 2,3890, e o risco-país avançou mais sete pontos, para 505 pontos-base. Os juros persistiram em queda no mercado futuro da BM & F porque não há especulação ou fraude externa capaz de impedir o movimento de queda desenhado para a Selic.

Apesar de os bancos que foram atingidos pelo desabamento das pirâmides financeiras erguidas pelo gestor Bernard Madoff, ex-presidente da Nasdaq, terem logo confessado os seus prejuízos - mais do que as perdas em si, são os boatos os maiores responsáveis pela quebra de bancos -, os grandes investidores permaneceram ressabiados. As instituições - Royal Bank of Scotland (RBS), BBVA, Santander, Natixis e BNP Paribas - admitiram as perdas, próprias e de clientes, após desvelado o gigantesco mecanismo piramidal de US$ 50 bilhões de Madoff. Se é para perder dinheiro melhor que seja pouco, e em títulos que preservam nominalmente o principal.

O crescimento da aversão ao risco derrubou mais um pouco os juros dos títulos do Tesouro americano, às vésperas da reunião do Federal Reserve (Fed) que poderá se transformar num triste marco na história da instituição. A expectativa é de que reduzirá a taxa básica de 1% para 0,50%, mas não se descarta corte radical para zero. A demanda pela segurança dos treasuries fez o juro recuar ainda mais. A taxa do papel de 10 anos cedeu ontem de 2,5756% para 2,5195%. A trajetória de queda dos T-10 acentuou-se depois da falência do Lehman Brothers, no dia 15 de setembro. Um dia antes, a taxa estava em 3,7210%. De lá para cá, caiu 120 pontos-base. Como o risco-país trafega na mão oposta a do rendimento dos treasuries, saltou de 265 para 505 pontos-base no período. Mas, dessa alta de 240 pontos, metade decorre apenas da variação experimentada pelo título americano.

Com ou sem novos escândalos, as taxas dos títulos americanos podem estar chegando ao fundo do poço. A remuneração já é tida como insatisfatória por investidores estrangeiros. Estes já se mostram a procura de refúgios mais rentáveis. O Net TIC Flows, que mede o fluxo de compra dos papéis do Tesouro por aplicadores de fora dos EUA, apontou redução mensal de US$ 63,9 bilhões. Os estrangeiros compraram US$ 1,5 bilhões em títulos, enquanto o mercado projetava algo em torno de US$ 40 bilhões. " Trata-se de indicador importante de uma possível reversão na valorização global do dólar " , diz o diretor da consultoria UP Trend, Jason Vieira.

O mercado de câmbio brasileiro sabe disso e tenta se aproveitar dos últimos momentos da farra. A inquietação externa desencadeada pelo caso Madoff permitiu que a moeda fechasse ontem em alta de 0,97%, cotada a R$ 2,3890. Mas o oxigênio da especulação foi cortado pelo Banco Central quando decidiu não mais fazer novos leilões de contratos de swaps cambiais, atendo-se a meramente suprir eventuais deficiências de liquidez por meio de operações de venda à vista.

A alta do dólar não está sendo mais fonte de preocupação para o mercado futuro de juros da BM & F. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, registrou ontem a sua 12ª baixa consecutiva. Cedeu de 12,79% para 12,78%. Antes do início desse ciclo estava em 14,64%. A queda do DI futuro acontece apesar de todas as inconsistências demonstradas pelo Boletim Focus, relatório oficial do BC que colige as opiniões de cerca de 100 instituições do mercado. Enquanto, pela mediana das expectativas, aguarda-se um pesado tombo do PIB - dos 5,59% deste ano para 2,5% no próximo -, a previsão de IPCA para 2009 permaneceu em 5,20%. Se a elevadíssima Selic (estimada em 13% no final de 2009, ou seja, em modesta queda de 0,75 ponto após as oito reuniões do Copom agendadas para ano que vem), conseguirá derrubar a expansão do PIB pela metade, terá efeitos mais modestos sobre a inflação. Sobre o saldo da balança comercial, há uma clara sobrevalorização da queda das exportações e uma nítida subestimação do recuo das importações. Chutes? " As projeções para o ano de 2009 nos parecem desalinhadas entre si, porém, em realidade, acreditamos que todas as projeções para final de 2009 são muito frágeis dado o grau de incertezas prevalecentes na economia mundial " , diz o economista Sidnei Nehme, diretor da NGO Câmbio.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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