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Análise: Falta capital externo e Brasil se descola

SÃO PAULO - Os mercados brasileiros se descolaram ontem negativamente dos pregões americanos. Enquanto nos EUA a decisão do governo de estatizar as gigantescas agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac provocou euforia, no Brasil, após uma reação inicial de regozijo, imperou o comportamento depressivo. Enquanto o Dow Jones fechou em alta de 2,58%, a Bovespa caiu 2,35%. Trata-se do que os analistas chamam de decoupling reverso . Há várias razões para isso. A mais decisiva é que a euforia se limitou ao mercado de ações e ao dólar.

Valor Online |

A aversão global ao risco - o que mais interessa aos mercados emergentes como o Brasil - manteve-se elevada, tanto que o juro do título de 10 anos do Tesouro americano, por causa do excesso de demanda, caiu de 3,7099% para 3,6799%. A aversão decorre do sentimento de que a economia mundial está em rota, ainda não inteiramente mapeada, de desaceleração. A federalização das agências alivia momentaneamente as aflições internas dos americanos, mas não reverte a aversão nem traz de volta o investidor estrangeiro para a ponta de compra dos mercados brasileiros.

Não há um contágio positivo porque a economia dos EUA não inspira confiança. As comemorações do socorro oficial de US$ 200 bilhões podem ter sido exageradas e não durar muito. Ontem à tarde já surgiam nos EUA críticas à demora das autoridades em proceder a ajuda. De qualquer forma, o recado é o mesmo do proferido há um ano pelo Federal Reserve (Fed): ninguém vai quebrar. Vem daí o alívio. Além da política monetária expansionista, o Fed fornece farto crédito aos bancos, cerca de US$ 980 bilhões só este ano. Há um outro motivo para a ausência de contágio positivo , bem mais direto, técnico e incontornável: não há liquidez nos pregões brasileiros para sustentar, como lá fora, onda fictícia de alta. Como o capital externo não volta e o que ainda está atuante aqui prefere a venda, o giro de negócios torna-se pífio: no interbancário de dólar à vista, o movimento foi ontem de US$ 2,6 bilhões, quando, em épocas normais de supremacia dos carry trades, o volume atingia facilmente os US$ 5 bilhões; no pregão de juros futuros da BM & F o giro foi de 272 mil contratos (em dias sem emoção costuma negociar 500 mil e nos de ajustes pós-surpresas do Copom, entre 1,2 e 1,4 milhão).

De todo modo, se a percepção é de que a crise financeira é deles, dos americanos, a aversão a risco ainda não provoca uma contaminação negativa severa à economia brasileira. Não produz uma disparada do dólar capaz de desencadear fobias inflacionárias. O dólar subiu ontem aqui 0,87%, para R$ 1,7350, uma cotação ainda baixa. E a moeda americana não se valorizou no mercado doméstico mais do que se apreciou nas praças internacionais frente a moedas fortes. Os juros futuros subiram muito pouco na BM & F. A taxa para janeiro de 2010 avançou de 14,73% para 14,78%.

Se a federalização das agências tem dimensão monetária e psicológica suficiente para demarcar historicamente o fim do neoliberalismo em sua pátria de origem - tendo a mesma força simbólica que teve a queda do muro de Berlim para o desmoronamento do comunismo - no Brasil o Banco Central tratará, amanhã, de mostrar que a doutrina continua muito viva e operante. A despeito da deflação corrente - divulgado ontem, o IGP-DI acusou taxa negativa de 0,38%, para uma mediana de -0,33% dos economistas de bancos, e taxa positiva de 1,12% em julho -, e da queda nas projeções de IPCA para o acumulado de 2008 (de 6,32% para 6,27%, segundo o último Focus), não há a menor possibilidade de o Copom não subir a Selic de 13% para 13,75%.

A inflação reduz agora o seu ímpeto de alta pela mesma razão que, no primeiro trimestre do ano, aumentou o ritmo. O IPCA é refém do sobe-e-desce das commodities. E a demanda super-aquecida? Sozinha, não exigiria o mega-aperto hora em curso. Os analistas ecoam obedientemente o discurso neoconservador dos dirigentes do BC segundo o qual o arrocho foi deslanchado em abril não para combater um surto de alta vinda das commodities, mas para neutralizar o descompasso letal entre demanda hiperexcitada e oferta cronicamente insatisfatória. Como esta é a única razão de ser do reaperto monetário e como ainda não houve tempo hábil para que a ação tempestiva do Copom fizesse efeito no nivelamento das duas forças, o BC irá ignorar solenemente a deflação corrente.

Como se saberá que a atuação finalmente deu certo? Quando as expectativas de IPCA para 2009 colhidas pelo Focus começaram a se encaminhar para o centro da meta de 4,5%. A projeção está em 5% há oito semanas. Essa resistência é citada como argumento definitivo para que o Copom não suavize o aperto. Será? A verdade é que os analistas não têm certeza alguma sobre o comportamento que o IPCA irá assumir no ano que vem. Se os economistas fizerem tudo bem feito e projetarem com rigor todas as variáveis - e abusarem, além dos modelos econométricos, da arte, da intuição e da experiência - chegarão a um número entre 4,5% e 5%. Mas confessar essa dúvida significaria questionar a sabedoria do oráculo oficial, para quem, sem um violento arrocho, que sufoque a vontade de consumir e crescer da Nação, o IPCA não voltará à meta. Para não desafiar a autoridade e não colocar em dúvida o dogma da infalibilidade do BC, o Focus prefere deixar o prognóstico para 2009 comodamente estacionado nos 5%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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