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Análise: Face financeira da crise volta a assustar

SÃO PAULO - Nem mesmo o mercado futuro de juros da BM & F conseguiu ontem se desprender da onda de nervosismo que assolou Wall Street. Mais do que dados macroeconômicos ruins sobre a economia americana, a situação financeira do setor bancário global voltou a inquietar os investidores.

Valor Online |

Em momentos de desconfiança, a aversão a risco prepondera sobre o fator rentabilidade. As ações de grandes bancos desabaram e os aplicadores institucionais de porte buscaram refúgio nos títulos do Tesouro americano, tanto que a taxa do papel de 10 anos cedeu de 2,2966% para 2,1985%, deixando à mingua os mercados de renda variável e de moedas de países emergentes. Justamente quando se isolava a crise internacional em seus aspectos deflacionistas e recessivos, a sua face puramente financeira volta a assombrar. Como os bancos não estão saneados, a normalização do fluxo de crédito pelas canais corriqueiros da economia mundial ainda pode demorar.

Se o único índice negativo do dia fosse o relativo às vendas no varejo dos EUA, que recuaram 2,7% em dezembro quando se previa queda de 1,2% - parcialmente compensado por um recuo nos preços dos importados (4,2%) menor que a expectativa (6%) e uma redução (0,7%) de estoques das empresas americanos superior a estimativa (0,4%) dos analistas - , talvez as bolsas de Wall Street não tivessem caído tanto. O Dow Jones fechou em baixa de 2,94% refletindo a aflição com o noticiário pessimista sobre instituições financeiras, sobretudo o Citibank. Apesar de tudo o que foi feito para reorganizar suas finanças - aporte do Federal Reserve (Fed) de US$ 300 bilhões, venda de unidades e anúncios de planos de encolhimento salvadores - o Citi não sai do foco central. E está lá em muito boa companhia. Na opinião dos analistas do Morgan Stanley, o HSBC, embora já seja o maior banco europeu em capitalização de mercado, precisará de nova injeção de capital entre US$ 20 bilhões e US$ 30 bilhões. Outro bancão, o Deutsche, informou que deve ter um prejuízo de ? 4,8 bilhões no quarto trimestre de 2008. E o Barclays, de Londres, não desmentiu rumores de que pretenda cortar mais de 4 mil funcionários.

Essa onda de pessimismo global com os bancos inviabiliza os esforços do Banco Central em conter a alta doméstica do dólar. Ele colocou ontem no sistema de câmbio nada menos que US$ 1,461 bilhão, mas o dólar fechou em alta de 0,81%, a R$ 2,3460. Teria sido pior se nada tivesse feito. Foi a terceira alta consecutiva do dólar. Nesse período, já acumula valorização de 3,26%. O BC vendeu US$ 1,270 bilhão aos bancos para repasse a exportadores e colocou à vista US$ 191 milhões. Sem a tensão externa, não haveria clima para altas do dólar, já que o déficit do fluxo cambial vem diminuindo. Segundo o BC, a balança foi nos seis primeiros dias úteis do mês negativa em US$ 873 milhões. No mesmo período de 2008, o déficit tinha sido de US$ 2,06 bilhões. O resultado até o dia 9 de janeiro equivale a uma saída líquida de quase US$ 146 milhões por dia útil, quando em dezembro saíram US$ 289 milhões.

A inquietação externa contaminou os negócios no mercado futuro de juros da BM & F. O crescimento da aversão forçou a zeragem de posições e as projeções de CDI subiram tecnicamente. A taxa para a próxima virada de ano subiu 0,09 ponto, a 11,56%. O juro do swap de 360 dias avançou de 11,47% para 11,56%. Nada a ver com as expectativas para a reunião do Copom da próxima quarta-feira. O pregão mantém em 65% a probabilidade de o Comitê reduzir a taxa em 0,50 ponto, para 13,25%. Os restantes 35% concentram-se na aposta de um corte mais generoso, de 0,75 ponto.

Cresce no mercado tanto a ala dos que acreditam no 0,75 ponto quanto a corrente dos que defendem 1 ponto. Ao primeiro grupo integrou-se ontem o economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon. As indicações são de retração econômica no quarto trimestre do ano passado e no primeiro deste e, diante de circunstâncias extremas, são necessárias medidas extremas. Sobretudo considerando-se que o Copom só se reúne a cada 45 dias, um intervalo muito extenso para um ambiente tão instável. O economista-chefe da Gradual Investimentos, Pedro Paulo da Silveira, engrossa a fileira dos que defendem corte de um ponto da Selic. " Acredito que não há clima para um corte menor por parte do BC, uma vez que as pressões inflacionárias estão moderadas e o nível de atividade está em queda livre " , diz Silveira. A ala majoritária do 0,50 ponto não parece ter uma convicção genuína. Só precisa de um sinal favorável do BC para ampliar as outras duas correntes.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico )

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