SÃO PAULO - O mercado de juros mostra-se insensível aos dados positivos sobre a inflação corrente. O pregão de CDI futuro da BM & F desprezou ontem a informação surgida logo cedo de que o IPC FIPE recuou de 0,45% em julho para 0,38% na primeira quadrissemana de agosto, muito perto do piso das expectativas do mercado, de 0,36%. A desaceleração dos índices é um fator arquivado como já conhecido na memória operacional do mercado, como também acredita já saber previamente a reação que o Banco Central terá a ela: continuará agindo monetariamente como se nada tivesse acontecido. Se não há o temor de surgimento de surpresas capazes de reduzir os prêmios incorporados aos contratos, a curva futura reflete um evento único de peso: a saída de investidores estrangeiros até então maciçamente vendidos em DI futuro. A saída deles provoca alta dos juros futuros longos.

Em uma semana, do dia 4 ao 11, a posição vendida em taxa dos fundos estrangeiros recuou de R$ 121,3 bilhões para R$ 114,71 bilhões. Enquanto os juros curtos não têm muito espaço para subir - o CDI previsto para a virada do ano avançou de 13,72% para 13,74% -, os longos sobem com mais desenvoltura. O contrato com vencimento em janeiro de 2010 subiu de 14,67% para 14,74%, quando estava em 14,59% na segunda-feira. A taxa para janeiro de 2011 evoluiu de 14,41% para 14,45%.

O que os estrangeiros estão fazendo no pregão de juros futuros tem ligação direta e automática com as operações fechadas no recinto eletrônico ao lado, os pregões de derivativos cambiais. Os hedge funds mudaram completamente de opinião e atitude do final do mês passado para cá. A guinada foi de US$ 11,8 bilhões, pois eles passaram de vendidos líquidos (entre cupom cambial e dólar futuro) em US$ 8,53 bilhões no dia 29 de julho para comprados em US$ 3,3 bilhões no dia 11 de agosto. Ou seja, apostavam pesadamente na queda do dólar e hoje cresce a suspeita de que a moeda que irá desvalorizar-se será o real.

É o que está ocorrendo na prática: na contramão internacional, o dólar subiu aqui dentro 0,55%, para R$ 1,6250, e acumula no mês valorização de 3,97%. O capital externo começa a acreditar que essa será a tendência para o ano. Trata-se de aposta na continuidade do declínio das commodities e na alta do dólar. Ontem, o índice CRB de 19 commodities caiu 0,29%, acumulando em agosto tombo de 7,78%, mas no ano ainda ostenta ganho de 7,05%. Das 19 commodities do CRB, o petróleo ainda é a estrela maior. Recuou ontem em Nova York 1,26%, para US$ 113,01 o barril, sendo que só em agosto já tombou 8,92%. Mas como fechou 2007 cotado a US$ 95,98, o barril ainda exibe uma gordura para queimar de 17,74%.

O petróleo contrariou o viés técnico de subir em dias de fraqueza do dólar diante do euro e do iene por causa de informações muito negativos para os especuladores da Nymex. A sua brincadeira foi longe demais, já que segundo a Administração de Informação de Energia (AIE) a procura por petróleo nos EUA durante o primeiro semestre deste ano recuou, em média, 800 mil barris por dia, comparativamente ao mesmo período de 2007. Foi, em termos de volume, a maior queda em 26 anos. Os motivos oficiais para a queda foram a desaceleração econômica americana e o desestímulo ao consumo proveniente dos próprios preços elevados da commodity. Ou seja, os especuladores foram gananciosos demais num momento em que os EUA sofriam uma devastadora crise de liquidez financeira.

Para que as commodities persistam em queda e o dólar em alta - fatores que despertarão os players domésticos para a necessidade de buscarem proteção contra variações cambiais maiores, alimentando ainda mais a alta - a economia americana não poderá se mostrar mais debilitada que a européia e a asiática. E ontem os mercados americanos não conseguiram esconder suas preocupações com a saúde de importantes instituições financeiras.

As recaídas sofridas freqüentemente pela crise de crédito protelam a decisão do Federal Reserve (Fed) de elevação do juro básico, esta sim uma via muito rápida de valorização do dólar mundo afora e de retorno do petróleo para o nível dos US$ 70,00 considerados adequados para as atuais condições de oferta e demanda. Os índices de ações de Wall Street foram duramente afetados pela baixa registrada pelas ações do Goldman Sachs (excessivamente exposto aos mercados de ações emergentes) e do JP Morgan (que acusou novas perdas contábeis de US$ 1,5 bilhão). O índice Dow Jones fechou em baixa de 1,19%, enquanto o Nasdaq caiu 0,38%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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