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Análise: Estrangeiro inverte mão e dólar derrete

SÃO PAULO - O Banco Central pode estar ganhando neste início de ano um inesperado aliado em sua política antiinflacionária. Depois de lucrarem um pouco mais de 39% com suas posições compradas em dólar mantidas desde setembro nos mercados futuros de câmbio da BM & F, os investidores estrangeiros dão sinais de que pretendem inverter a mão e passar a apostar na valorização do real.

Valor Online |

Este foi, segundo operadores, o principal motivo para a pesada queda registrada ontem pelo dólar. A moeda fechou no mercado à vista com desvalorização de 3,42%, cotada a R$ 2,2530. No pregão de dólar futuro, o contrato para fevereiro caiu 3,59%, a R$ 2,2730
Uma minoria de operadores creditou ao leilão de linhas feito ontem pelo BC parte do mérito da queda sofrida pelo dólar. Tecnicamente, a argumentação é frágil. Ele fez, das 14h30 às 15 horas, leilão para a venda de dólares com recompra em três datas no valor de US$ 650 milhões. Mas na verdade tratou-se de renovação da maior parte de linhas equivalentes a US$ 700 milhões que foram colocadas no início de outubro e cuja recompra estava marcada para ontem. A explicação mais coerente parece mesmo pertencer a ala dos que atribuem a desvalorização à mudança de direção nas apostas os fundos externos Mas apenas nos próximos dias se saberá com certeza se os hedge funds internacionais têm mesmo a disposição de reverter o posicionamento comprado em dólar (uma aposta contra o real).

Eles encerraram 2008 carregando posições líquidas (entre cupom cambial e dólar futuro) compradas no valor de US$ 13,23 bilhões. E iniciaram 2009 (posição relativa ao pregão de estreita liquidez do dia 2) com US$ 13,174 bilhões também comprados. A posição do capital externo foi revertida de vendida para comprada no começo de setembro, quando o dólar estava cotado a R$ 1,6770. A inversão ajudou a promover o pesado overshooting cambial que está retardando o início do ciclo de queda da taxa Selic. Se, de fato, os hedge funds voltarem a fechar apostas a favor do real - posicionamento vendido em dólar permitido pela farra da liquidez experimentada pelos mercados de 2003 até o primeiro semestre de 2008 -, o Copom se verá desprovido de justificativas para manter a taxa básica em patamar elevado.

O mercado futuro de juros da BM & F intensificou mais ainda o movimento de recuo das projeções de CDI. A taxa para a próxima virada do ano caiu de 12,14% para 12,07%. Para janeiro de 2011, a estimativa cedeu de 12,14% para 12%. E para janeiro de 2012 caiu de 12,17% para 12,06%. Ou seja, a curva futura começa a ficar plana, primeiro passo antes de ficar negativa. Antes da crise, a estrutura a termo das taxas de juros era negativa porque o real se apreciava e as expectativas indicavam inflação declinante. Alguns analistas estão inquietos com a rápida aproximação da taxa relativa a janeiro de 2010 do degrau de 12%. Para sustentar o rompimento desse patamar, o mercado teria de assumir uma aposta ousada: a de que o Copom fará cortes ainda mais agressivos. Tal audácia não combina com a cautela implícita na queda registrada pelo giro de negócios no pregão da BM & F. O movimento vinha crescendo sem parar nos últimos cinco anos. Da média diária de 657.132 contratos estabelecida em 2006, o giro pulou para 904.826 em 2007. Mas no ano passado a média diária cedeu para 670.617 contratos.

Os DIs futuros caíram mais ainda ontem não só por causa do tombo do dólar, mas também porque os economistas de instituições passaram a acreditar que o Copom irá iniciar o ciclo de relaxamento monetário, no próximo dia 21, com um corte mais profundo da Selic do que o até agora imaginado. Segundo projeção mediana das cem instituições que alimentam o boletim Focus de previsões, a baixa será de 0,50 ponto, e não de 0,25 ponto como discutido na última reunião de 2008.

O BC começaria cortando a taxa com uma intensidade maior mas não ampliaria, de acordo com o Focus, a extensão do movimento de queda. Tanto que os economistas não alteraram a previsão de taxa de 12% no fim do ano. Sustentaram a estimativa de baixa acumulada de 1,75 ponto quando o DI futuro já está abrindo a possibilidade de uma magnitude mais elástica, de pelos dois pontos. Há analistas já enxergando a viabilidade técnica de um recuo até superior a 3 pontos. As expectativas inflacionárias já começaram a convergir para o centro da meta de 4,5%. Pelo Focus divulgado ontem, a projeção de IPCA para os próximos doze meses já recuou abaixo da linha dos 5%. Cedeu de 5,01% para 4,96%. Esta queda mostra coerência com a nova e mais pessimista estimativa de crescimento do PIB este ano, que retrocedeu de 2,44% para 2,40%.

Os altistas em juros estão perdendo argumentos de maneira cada vez mais preocupante. Um dos oráculos de maior credibilidade do mercado, o professor Luiz Guilherme Schymura da FGV-Rio, sustenta na Carta do IBRE de janeiro que a atual alta do dólar, ao contrário dos choques cambiais de 1999 e de 2002, não está produzindo inflação. " O episódio do choque cambial de 2008 é o único, entre os três comparados nesta Carta, em que não houve repasse instantâneo para o atacado. Assim, ao contrário das conclusões de parte das análises correntes, não há uma onda inflacionária em formação. Pelo contrário, no geral os custos da indústria estão em desaceleração " . A alta do custo de produção derivada do dólar está sendo neutralizada pela queda das commodities.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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