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Análise: Estrangeiro em fuga paga pedágio caro

SÃO PAULO - Os investidores estrangeiros estão tendo de pagar um pedágio pesado para sair do país. O dólar e os juros dispararam ontem como reflexo da debandada do capital externo mais especulativo, interessado em obter dinheiro aqui para cobrir posições em outras praças.

Valor Online |

Para sair de suas posições clássicas alavancadas, os " hedge funds " precisam vender títulos públicos e encontrar alguém que fique com os contratos futuros de juros longos. As instituições nacionais só aceitam assumir os papéis mediante um sobrepreço considerável. Esse movimento natural de " fazer sangrar " quem quer pular fora do jogo magnificou a tendência de valorização do dólar e de alta do custo do dinheiro nascida da desconfiança generalizada, do empoçamento da liquidez e da contração global de crédito. Não bastasse a fuga, os investidores internacionais que ficaram resolveram cacifar ainda mais a aposta contra o real.

Tanto que as posições " compradas " que carregam liquidamente nos pregões de dólar futuro e cupom cambial da BM & F atingiram US$ 6,735 bilhões no dia 17, recorde absoluto, sendo que no dia 1º de setembro estavam " vendidos " em US$ 3,05 bilhões. Além da desalavancagem de " hedge funds " , da busca por dólares e de proteção por empresas, da formação de posições especulativas contra o real, outro fator ajudou a levar pânico às mesas de câmbio por volta das 15h30, quando o dólar bateu em R$ 1,9630, em disparada irracional de 5,09%: custou a cair a ficha do Banco Central. Deveria ter fornecido linhas de crédito em dólar logo de manhã.

Depois que o BC anunciou a realização hoje de leilão de venda de dólar com compromisso de recompra, o mercado tentou recuperar a serenidade. A cotação desceu do quarto do pânico e encerrou o dia a R$ 1,93, com avanço de 3,3%. Com o mercado abastecido de dólar, a taxa de câmbio tende a recuperar um preço de equilíbrio, em sintonia com a solidez da economia brasileira. A arrancada recente do dólar já se mostrou excessiva e potencialmente desestabilizadora. Na semana, a valorização alcança 8,4% e no mês, 18,3%. Comparativamente ao piso do ano - R$ 1,5590, no dia 1º de agosto - a alta atinge 23,8%. O que disso pode ser repassado aos preços? Em princípio, muito pouco, já que a desaceleração econômica provocada pela crise financeira mundial irá inibir o " pass-through " .

A louca corrida dos DIs longos não tem nada a ver com a chance de repasse ou com a ata do último Copom, documento de resto envelhecido e superado pelos fatos. Como diz o economista-chefe da RC Consultores, Marcel Pereira, a ata " foi redigida sob uma conjuntura que já não existe mais " . E também não passa pela cabeça de ninguém a idéia de que o Copom tenha de jogar o juro real na estratosfera para dissuadir a fuga de capital externo. Isso já foi feito duas vezes na história recente. Pagou-se juro real superior a 5% ao mês no final dos governos Sarney e Collor para evitar a saída de estrangeiros. A conjuntura de hoje é bem diferente, e não se está falando das reservas de US$ 206 bilhões. O fato é que, na crise atual, o que se quer é segurança e sobrevivência, e não rentabilidade, por maior que seja.

Em momentos de paranóia coletiva, os contratos longos de juros não guardam nem uma remota vinculação com a política monetária. Os juros longos dispararam por causa da desalavancagem. O estrangeiro consegue sair do papel, desde que pague. A taxa para janeiro de 2010, o contrato mais negociado, saltou de 14,85% para 15,30%. O CDI para janeiro de 2011 pulou de 14,85% para 15,35%. Os contratos curtos foram bem mais comedidos. A taxa para novembro subiu apenas 0,03 ponto, a 13,63%. A alta para dezembro foi de 0,02 ponto, a 13,86%. O título público predileto dos investidores estrangeiros isentos do pagamento de tributos, a NTN-B sofreu a cobrança de pedágio caro: o juro passou de 8,9% no início da semana para 9,2% ontem.

Uma crise de confiança não se resolve com dinheiro. Será preciso uma faxina completa em todas as carteiras. Não basta, como fez o Federal Reserve (Fed) na manhã de ontem, estacionar um caminhão em Wall Street carregado com US$ 250 bilhões. Se a crise é de confiança, o destino do veículo é ocupar poucas e espaçosas garagens, sem transitar pelas vielas mais carentes. As bolsas de Nova York só firmaram ontem uma tendência positiva depois que a CNBC informou que o secretário do Tesouro, Henry Paulson, trabalha na criação de um fundo governamental para assumir os micos e limpar de vez as carteiras. Seria um mecanismo similar à Resolution Trust Corporation, instituída em 1989 para absorver ativos podres de entidades de poupança. O Dow Jones fechou em alta de 3,86% por causa do fundo de Paulson, não do caminhão do Bernanke.

"(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)"

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