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Análise: Estrangeiro amplia aposta contra o real

SÃO PAULO - Quem tem medo do Banco Central? Os investidores estrangeiros que, comprados em dólar nos mercados cambiais futuros da BM & F, apostam contra o real desde o começo de setembro certamente não têm. Do dia 6 de outubro, quando começou a intervir no câmbio, até sexta-feira o BC vendeu à vista e no futuro o equivalente a US$ 14,67 bilhões.

Valor Online |

São as vendas totais feitas no período por meio das três modalidades utilizadas - leilões à vista, com compromisso de recompra e de swaps cambiais -, cujos objetivos eram irrigar o mercado supostamente seco de dólares e derrubar a taxa de câmbio. Este segundo alvo nunca foi admitido oficial, mas estava obviamente implícito nas intervenções pois a alta do dólar pressiona a inflação num momento em que a obstrução do crédito em reais impede a alta da Selic.

Apesar de pesada, a ofensiva do BC não conseguiu ainda vergar o preço: a cotação caiu apenas 3,55%, de R$ 2,1980 no dia 6 para R$ 2,12 na sexta-feira. Pouco já que, desde o piso do ano (R$ 1,5590 no dia 4 de agosto) o dólar já avançou até sexta 35,98%. Se a ofensiva não teve muito efeito sob a taxa pelo menos encurralou os hedge funds " comprados " e alterou os seus planos? Nada disso. Quando o BC iniciou o movimento de venda, no dia 6, eles carregavam posição " comprada " liquidamente, entre os pregões de cupom cambial e dólar futuro, de US$ 5,46 bilhões. Elas caíram depois para US$ 3,57 bilhões no dia 8, voltaram a subir depois e permaneceram alguns dias oscilando na faixa de US$ 5 bilhões. E subiram para US$ 7,07 bilhões na quinta-feira, último dado oficialmente conhecido. Esses investidores estrangeiros são parte dos players " comprados " bem-sucedidos no enfrentamento das exportadoras " vendidas " .

Os dados da BM & F mostram que, mesmo no período de intensa determinação do BC em irrigar o mercado de câmbio, período de 10 a 17 durante o qual o dólar caiu 8,38%, de um patamar de pânico (R$ 2,3140) para R$ 2,12, os fundos externos reforçaram suas apostas de valorização do dólar. A aposta dos hedge funds não se assenta apenas na crença de que a crise externa sofrerá novas recaídas cujo efeito é a intensificação da busca de proteção no dólar. Reflete também outra crença, a de que a taxa de câmbio brasileira mudou de patamar. Mesmo depois do fim do estágio mais financeiro da crise, restará a recessão global. Esta reduzirá as exportações brasileiras de commodities, diminuindo as receitas, e aumentará o custo das importações remanescentes. A expectativa é de que a moeda não voltará a ser negociada abaixo de R$ 2,00 durante um bom tempo.

A ofensiva " comprada " dos hedge funds não impinge perda apenas à contraparte " vendida " , as empresas brasileiras gulosas que queriam ganhar eternamente com o dólar baixo. O prejuízo, sob a forma de inflação mais alta, é de todo mundo. Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, calcula que, para cada 1% de desvalorização cambial, o impacto é de 0,07 ponto no IPCA. Considerando o dólar a R$ 2,00 tem-se um impacto " potencial " de 1,75 ponto sobre a inflação, que se efetivaria em cerca de seis meses. " Dessa forma, as expectativas de inflação que estavam em torno de 4,8% deverão, rapidamente, convergir para níveis mais próximos de 5,5%, ou seja, o que foi ganho nos últimos dois meses deverá ser perdido nas próximas duas semanas " , diz Leal. Isso potencialmente. Resta considerar o efeito da desaceleração da economia sobre os preços, vale dizer, sobre a aceitação do repasse cambial.

Esses dois aspectos antagônicos - impacto do câmbio e efeitos do desaquecimento sobre a inflação - prometem empolgar a reunião do Copom marcada para a semana que vem. Nesta reta final pré-Copom, o mercado tentará encontrar um consenso. Por enquanto as apostas estão díspares, com algum favoritismo para a opção em favor da parada em 13,75%. Para Leal, o BC estará em uma situação bastante difícil. De um lado, a desaceleração econômica via restrição de crédito está " contratada " para 2009, independente do que ele fizer com a sua política monetária. Isso reforça " a idéia de que poderia haver uma parada no aumento de juros como forma de avaliar melhor o cenário " , diz o economista. Entretanto, o impacto do dólar sobre a inflação é inequívoco. Para o Departamento Econômico do Bradesco, o impacto cambial se dará ainda em 2008, mas já no último trimestre os sinais de desaquecimento serão sentidos. " A falta de liquidez do mercado e o aperto monetário deverão surtir efeito e, com isso, possivelmente veremos os índices de inflação em 2009 convergindo a taxas mais baixas: IPCA e IGP-M devem registrar altas de 4,5% no próximo ano " , diz relatório do banco.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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