SÃO PAULO - Incapaz de desobstruir o canal do crédito, a ortodoxia monetária do Banco Central terá de contar com a ajuda heterodoxa da Fazenda para conseguir desaquecer a economia e trazer a demanda para o mesmo nível da oferta. Mas a desaceleração buscada por meio da imposição de IOF às operações de leasing pode já não ser mais necessária. A economia ainda não sentiu os efeitos do aperto de 1,75 ponto acumulado deste abril, mas os índices de inflação já despencam por causa do estouro da bolha de commodities. Os índices estão derretendo e sofrem escassa influência da decisão do Copom de elevar a Selic de 11,25% para 13%.

A puxada do juro mira vários alvos simultaneamente: 1) trazer de volta as expectativas de IPCA para o centro da meta de inflação, de 4,5%; 2) apreciar mais ainda a taxa de câmbio; 3) desestimular os investimentos produtivos; 4) convencer os consumidores a desistir do crediário; 5) forçar os assalariados a poupar por medo do desemprego. Nada disso estava acontecendo por causa exclusivamente do arrocho monetário. As expectativas do Focus para o IPCA começaram a ceder depois que a perspectiva de desaquecimento econômico mundial fez um enorme furo na bolha de commodities (incluído aí o petróleo). O câmbio, ao invés de se apreciar mais por causa da ampliação dos ganhos de arbitragem, depreciou-se devido à valorização do dólar nos mercados globais. Empresários e consumidores podem adiar seus projetos por causa do temor de recessão externa, não porque a taxa básica subiu 1,75 ponto, pois há, nos dois casos, meios de contornar o aperto.

O Copom pode teimar e fazer mais uma alta de 0,75 ponto, porque já foi excessivamente sinalizada. Reduzir a intensidade da dose para 0,50 ponto na próximo reunião (10 de setembro) seria confessar o erro. E admitir que se precipitou ao acelerar a Selic justamente num momento de inflexão dos índices. Mas a extensão total do arrocho terá de ser inevitavelmente menor (o Focus projeta Selic de 14,75% no fim do ano). Este é o recado explícito dado pelo mercado futuro de juros da BM & F: enquanto as taxas mais curtas resistem em cair (refletindo a teimosia do BC), as longas despencam. Na sexta-feira, o swap de 360 dias cedeu muito levemente de 14,55% para 14,54%, enquanto o CDI previsto para janeiro de 2010 caiu pesadamente de 14,73% para 14,65%. Isso tudo num dia em que o dólar avançou 0,86%, para R$ 1,64.

Para esta semana, recheada de importantes indicadores sobre a inflação corrente, os analistas não esperam mudanças em relação ao viés mantido na semana passada, de forte declínio das commodities, alta do dólar e queda dos juros. Na semana passada, o índice CRB de 19 commodities cedeu 1,32% (8,19% no mês) e o dólar subiu 1,93%. Nos onze dias úteis de agosto até sexta-feira, o dólar registrou valorização em nove. A expectativa é de que as instituições pesquisadas pelo Boletim Focus continuarão revisando para baixo suas projeções de IPCA. O que será divulgado hoje cedo pelo BC está cercado de grande expectativa e pode interferir na rota do juro.

A semana será aberta pela divulgação de dois índices calculados pela FGV: o IPC-S relativo à semana passada e o IGP-10 referente a agosto. O prognóstico é de queda expressiva para o IGP-10, dos 2% do mês passado para a faixa de 0,40%. Na quarta-feira saem dois índices muito apreciados pelos operadores, o IPC FIPE da segunda quadrissemana do mês e a segunda prévia do IGP-M. Para o primeiro, a expectativa é de nova baixa em relação ao 0,38% da quadrissemana anterior. E, para o IGP-M, não se descarta nova deflação. Ainda não possuímos todos os dados necessários para determinar a regressão necessária para o IGP-M, mas caso o IGP-10 venha em torno de 0,40%, o IGP-M do segundo decêndio virá próximo de zero, em 0,03% , diz Pedro Paulo Silveira, da Gradual Corretora. O grande índice da semana estará reservado para sexta-feira. Trata-se do IPCA-15 de agosto. Ele deve recuar do 0,63% de julho para algo próximo de 0,45%. Todos os dados de inflação, somados ao Relatório Focus que deve vir em baixa, apontam para uma expectativa benigna para a inflação e colaboram para um cenário mais positivo de taxa de juros por aqui. Fatalmente o BC terá que fazer um aperto monetário menor , diz Silveira.

Nos EUA, os dados que prometem chamar mais a atenção dos mercados serão os relativos à atividade econômica. Os de inflação tendem a ficar em segundo plano pois o Federal Reserve (Fed) não parece disposto a elevar o juro por piores que sejam os informes de inflação. O PPI (atacado) de julho sai amanhã e a estimativa é de alta de 0,6%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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