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Análise: Especulação distorce câmbio; BC cede

SÃO PAULO - Com liquidez muito baixa, o dólar oscilou freneticamente ontem, ao ritmo da especulação. Entre o piso de R$ 2,4610 e o teto de R$ 2,5360, a moeda registrou variação de 3,05%.

Valor Online |

O escasso volume de negócios no interbancário - caiu 36,6%, de US$ 2,68 bilhões para US$ 1,7 bilhão - favoreceu as armações especulativas engendradas a partir dos mercados de derivativos cambias da BM & F. Tanto que o dólar, apesar do fluxo pequeno de saída, fechou na cotação máxima do dia. Foi a sexta valorização consecutiva, acumulando no período 11,47%. Trata-se de overshooting cambial capaz de contaminar irremediavelmente a inflação? Nada disso. É especulação pura mesmo. Mas como o Banco Central não está com paciência para esperar a reversão natural dessas manobras altistas - ou, numa interpretação mais dramática, teme que elas precipitem bola de neve incontrolável -, resolveu agir quando ninguém mais apostava em intervenções.

O BC passou o dia inteiro só observando a instabilidade cambial. Não fez nada até o mercado à vista fechar as portas. Para operadores, a cotação final de R$ 2,5360, a maior desde 28 de abril de 2005, foi exacerbada por armação vendida malsucedida costurada por instituições que esperavam comprar o dólar mais barato depois que o BC, inconformado com a alta, vendesse dólares das reservas. Como isso não aconteceu, eles foram forçados a honrar a posição adquirindo moeda no spot, a um preço bem mais alto do que seria o adequado mesmo para um dia megaespeculado como ontem.

Depois de punidos os especuladores à vista, o BC resolveu atender ao pleito dos que operam no futuro, o principal foco de depreciação cambial. E anunciou leilão de venda de swaps cambiais às 16h51, ou seja, com o segmento à vista já inativo. Ele não vendia esses papéis desde sexta-feira. E a maior parte da alta ocorrida de lá para cá estava sendo atribuída a pressões sobre o BC.

Ao negar a oferta de swaps cambiais - que nada mais são do que venda de dólares a futuro - o BC sonegava liquidez aos especuladores " comprados " , os maiores dos quais fundos estrangeiros. Estes carregam posições compradas de nada menos que US$ 13,1 bilhões. Ele ofereceu 10 mil contratos, mas os fundos só aceitaram os 6.320 com vencimento em fevereiro de 2009. Por meio deles, o BC vendeu no futuro US$ 314,6 milhões.

Se os fundos se mostrarem satisfeitos com a oferta do BC, o dólar pode cair hoje. Mas seria uma queda momentânea, pois é da própria lógica das posições compradoras que haja um importante vendedor de dólares a futuro. Essa irrigação não pode descontinuar. Como essas posições só darão lucro no final do contrato se, no período, a variação cambial for positiva, o caminho do dólar será sempre de alta. Até que os fundos resolvam reverter e zerar as posições por mudança de fundamentos.

Analistas ainda não vêem essas alterações no horizonte do provável, principalmente porque persiste o movimento de " desalavancagem " das carteiras de renda fixa montadas no Brasil. Mesmo em dias de baixa liquidez, esses fundos se desfazem de quantias entre US$ 100 e 150 milhões. Trata-se de dinheiro que não voltará nem no médio prazo. Segundo gestor de um hedge fund estrangeiro ainda está em " curso uma grande desalavancagem estrutural " . A solução para o problema seria os detentores de dólares (China, Japão, Brasil, Rússia e exportadores de petróleo) passarem a vender a moeda. Mas o histórico de crise dos emergentes impede a queima de reservas. Isso agrava o caixa de quem está saindo da posição e promove uma onda de depreciações cambiais. Até na China.

O mercado de juros sustentou a sua certeza de que a desaceleração da economia impedirá o repasse integral da alta do dólar aos preços. As taxas voltaram a cair ontem no pregão de juros futuros da BM & F. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, cedeu de 13,83% para 13,70%. Embora o consenso seja de que o Copom não irá reduzir a Selic na reunião marcada para a semana que vem, a impressão geral é a de que não poderá se apartar por muito tempo da onda de flexibilização monetária que varre o mundo.

As baixas de ontem foram mais acentuadas que o previsto: o BCE cortou o juro da Zona do Euro de 3,25% para 2,50%; o BoE reduziu a taxa inglesa de 3% para 2%; o BC da Suécia diminuiu a sua de 3,75% para 2%; o da Indonésia cortou de 9,50% para 9,25%; e autoridade da Nova Zelândia baixou de 6,5% para 5%. E enquanto já se considera crível que o Federal Reserve será capaz de reduzir a taxa americana no dia 16 de 1% para 0,50%, o Copom envia sinais de que irá segurar a Selic em 13,75% porque está preocupado com a inflação.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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