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Análise: Em quatro dias, dólar anula queda de julho

SÃO PAULO - O dólar subiu 2,12% somente nos últimos quatro pregões, alta suficiente para zerar toda a baixa sofrida ao longo de julho. O movimento coincidiu com o desmonte de posições vendidas carregadas por fundos estrangeiros na BM & F, com o fortalecimento do dólar frente ao euro e o iene e com o declínio das commodities. Os três fatores estão evidentemente interligados. Ontem, um deles não esteve presente - o petróleo fechou em alta de 1,21% na Nymex, cotado a US$ 120,02, enquanto o índice CRB de 19 commodities subiu 0,58%. Mas os outros dois compareceram: a posição vendida líquida de aplicadores de fora nos segmentos de cupom cambial e dólar futuro caiu a US$ 2,57 bilhões anteontem, de US$ 3,2 bilhões no dia 5. As perdas diárias são acentuadas. O auge das vendas futuras (que equivalem a aposta ativa de queda do dólar no mercado à vista) ocorreu no dia 29 (-US$ 8,53 bilhões). De lá para cá, só diminuíram a razão de US$ 1 bilhão médio por dia. O dólar se valorizou frente ao euro em conseqüência dos comentários pessimistas feitos sobre a atividade econômica européia pelo presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, após o banco ter decidido manter o juro básico em 4,5%. No mercado doméstico, o dólar fechou cotado a R$ 1,5920, em alta de 0,88%.

Valor Online |

A valorização do dólar no mercado interno retira do Brasil o troféu de paraíso financeiro do juro real. Este, na casa de 8,5% ao ano, ainda é o maior do mundo, mas se a depreciação do real virar uma tendência, o ganho financeiro não cobrirá a perda cambial. Aos olhos dos especuladores de curto prazo, sempre com o dedo no gatilho, não basta juro alto. É preciso, para se investir no Brasil, juro alto e condições (commodities em alta e ausência de déficit em transações correntes) que garantam o viés de apreciação cambial. Os vendidos tiveram muita dificuldade em romper o piso de R$ 1,60, no dia 14 de julho, e não conseguiram consolidar uma nova tendência. E agora o dólar está prestes a voltar a ser cotado acima de R$ 1,60 porque o país está sob ameaça de perder parte importante das receitas vindas das commodities, enquanto a remessa de lucros e dividendos e a saída de portfólio alargam de forma imprevista e alarmante o déficit em conta corrente.

O economista da Pentágono Asset, Marcelo Ribeiro, observa que quando o ministro da Fazenda Guido Mantega, ao querer dar uma boa notícia sobre a tendência futura da Selic, diz que o pior em relação à inflação já passou porque as commodities estão caindo, ele se esquece que o real também é percebido lá fora como uma commodity-currency na medida em que 60% da economia estão, direta ou indiretamente, vinculados às commodities. A queda das commodities vai enfraquecer o real e vai impedir que o BC pare de elevar os juros. Além disso, o dólar está com perspectiva de overshooting global, na medida em que 38% do furo nas contas externas dos EUA derivam do petróleo. Com a queda do barril, o déficit externo americano se estreita e fortalece o dólar. Devemos adentrar 2009 com o BC pisando firme no acelerador dos juros , prevê Ribeiro. A Selic voltaria a subir não para supostamente combater a feroz inflação de demanda que assola os shoppings, mas para debelar a velha inflação de custos derivada de mais uma emersão de âncora cambial.

Mas ainda não foi por isso que os juros interromperam ontem o seu movimento de queda no mercado futuro da BM & F. Com liquidez estreita (giro de apenas 486 mil contratos), o pregão aproveitou a trégua dada pelos indicadores de inflação e a realização de um leilão primário de títulos públicos para puxar as taxas para cima. O contrato para a virada do ano subiu de 13,72% para 13,73%. E o CDI previsto para janeiro de 2010 avançou de 14,63% para 14,66%. O único índice divulgado ontem foi um dos menos prestigiados pelo mercado, mas seguiu a tendência declinante dos demais. O Índice de Preços ao Consumidor - Classe 1 (IPC-C1), que leva em conta as despesas de consumo das famílias com renda de um a 2,5 salários mínimos mensais, desacelerou de 1,29% em junho para 0,61% em julho. Hoje os players não conseguirão ficar indiferentes aos indicadores. Serão três e dos mais respeitados. O IBGE divulga o IPCA do mês passado e a perspectiva é de queda acentuada em relação ao 0,79% de julho. Comenta-se algo entre 0,45% e 0,55%. Sai também o primeiro decêndio de agosto do IGP-M e o IPC-S relativo à semana passada. Ajudou na alta dos DIs futuros, a venda pelo Tesouro de 1,5 milhão de LTNs (papéis prefixados) no valor R$ 1,232 bilhão. Os bancos credores gostam de valorizar suas propostas ao leilão e fazem isso puxando o DI com vencimento correspondente.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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