SÃO PAULO - Já em rota firme de queda desde o final de novembro, os juros intensificaram ontem esse deslocamento no mercado futuro da BM & F. Na véspera da publicação no site do Banco Central da ata da reunião do Copom realizada na semana passada, o sentimento vigente ontem no DI futuro era de que o documento irá reforçar e tornar inevitável a tendência de baixa da taxa Selic sinalizada na nota emitida após o encontro.

Não há outro caminho a ser trilhado pelo BC sobretudo depois que a mudança imprimida pelo Federal Reserve (Fed) em sua política monetária, ao derrubar o dólar globalmente, afastou o medo de contágio inflacionário pela depreciação cambial. Razão do conservadorismo do BC, o dólar caro já não inquieta mais. O viés é de baixa também porque a banda de flutuação do juro americano, entre zero e 0,25%, alargou a diferença entre a Selic e o fed fund, o que atrai o capital que sobreviveu ao massacre pós-quebra do Lehman Brothers. O risco-Brasil caiu ontem 8,56%, para 459 pontos-base.

As baixas registradas pelos contratos futuros de CDI foram generalizadas e profundas. O de maior liquidez, com vencimento em janeiro de 2010, recuou de 12,67% para 12,49%. No início do mês estava em 14,5%. A taxa prevista para janeiro de 2011 cedeu de 13,30% para 12,97%. O juro do swap de 360 dias, considerado o piso privado do custo do dinheiro, declinou de 12,83% para 12,55%. A intensificação do ajuste à nova realidade monetária mundial exigiu um bom incremento no volume negociado no pregão de DI. O giro subiu 46%, para 580 mil contratos.

O dólar seguiu no mercado doméstico a trajetória de desvalorização traçada globalmente. Fechou cotado a R$ 2,3470, em baixa de 1,05%, num dia em que o BC divulgou dados relatando uma piora na balança cambial. Depois de contabilizar um superávit de US$ 7 milhões na semana anterior, o fluxo cambial foi negativo em US$ 2,17 bilhões na semana entre 8 e 12 de dezembro. De acordo com o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, o principal motivo para a deterioração foi a reversão verificada no saldo das operações comerciais. Estas registraram saída líquida de US$ 839 milhões, ante saldo positivo de US$ 1,088 bilhão na semana precedente. Os dados apontam uma queda significativa (de 103% para 63%) na razão entre o câmbio contratado pelos exportadores e o valor das exportações físicas registradas na semana. Essa relação mede a facilidade ou a dificuldade encontrada por exportadores para obter linhas de financiamento externo. Quanto mais perto de 100%, maior a facilidade. Quanto mais perto de 50%, maior a dificuldade. Foi talvez por isso que ontem o BC fez um leilão de US$ 500 milhões em linhas.

Pelo segmento financeiro, o comportamento não foi estranhável. O fluxo foi negativo em US$ 1,33 bilhão, pouco superior à saída líquida de US$ 1,081 bilhão ocorrida na semana anterior. Positivamente surpreendente, foi a expressiva recuperação da liquidez no mercado cambial. O total movimentado entre 8 e 12 de dezembro atingiu US$ 26,162 bilhões, contra US$ 17,324 bilhões no período anterior, sendo que boa parte desta elevação adveio do segmento financeiro. De acordo com Borges, em momentos de estresse dos mercados como agora, uma liquidez mais apertada favorece puxadas do dólar para cima. Cerca de 10% do preço é derivado da liquidez. Se o giro está alto, a cotação tende a ficar 10% mais baixa do que ficaria em fases de aperto. Os outros fatores que interferem na taxa são o grau externo de aversão a risco e os termos de troca. Há também a causalidade em sentido duplo com o fluxo exercida pelas posições assumidas nos mercados de derivativos cambiais.

Para a LCA, o significativo recuo da taxa de câmbio (de R$ 2,50 no dia 5 de dezembro para menos de R$ 2,40 no final da semana anterior) em um contexto de saldo negativo e maior liquidez no mercado cambial reforça a percepção da consultoria de que, mais que o saldo, a liquidez vem tendo um papel determinante na oscilação da taxa de câmbio. " A expectativa de uma relativa normalização nas operações do mercado ao longo dos próximos meses, portanto, sustenta a projeção da LCA de um gradual recuo na taxa de câmbio, dos R$ 2,40 esperados para o final deste ano para R$ 2,30 no primeiro semestre de 2009 e R$ 2,10 no fechamento do ano que vem " , prevê Borges.

As intervenções cambiais do BC totalizaram ontem US$ 1,6 bilhão. Além do leilão de linhas, ele fez outras duas atuações no mercado de câmbio. Vendeu à vista US$ 169 milhões e rolou mais 20,64 mil contratos de swaps cambiais que vencerão dia 2. Do resgate total de US$ 9,6 bilhões, já revalidou US$ 8,4 bilhões.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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