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Análise: Deflação pede corte mais fundo na Selic

SÃO PAULO - Não é só o Banco Central que está atrás da curva de juros. O próprio mercado futuro de juros parece estar atrás da realidade econômica.

Valor Online |

O contágio da crise externa é pior do que se imaginava. As previsões dos analistas estão sempre mais otimistas do que os fatos. Estes relatam um mundo real em forte degradação. Tanto o BC quanto o mercado parecem estar aquém dos desafios atuais. O IGP-10 de janeiro mostrou a maior deflação da história. A queda foi de 0,85%, mais que o dobro das projeções dos analistas. O IPA, o índice que mais deveria estar acusando as pressões cambiais, é justamente o que mais derrete. Tombou 1,5% no mês. Ele reflete cruamente o tranco sofrido pela economia brasileira.

Para tentar " apressar o passo " e chegar um pouco mais perto da realidade, os juros caíram pesadamente ontem no mercado futuro. A taxa para o final do ano cedeu de 11,59% para 11,41%. O juro do swap de 360 dias baixou de 11,56% para 11,45%. Amplia-se a cada dia, como reação aos novos indicadores, o contingente de analistas que atinge subitamente a " iluminação " e passa a vislumbrar no corte imediato da Selic em 1 ponto uma providência natural e inescapável. Concorrente direto do Brasil nos rankings de melhores pagadores de juros nominais e reais do mundo, a Turquia atravessa processo semelhante. O BC turco reduziu o juro básico ontem em 2 pontos, para 13%, depois de já ter baixado a taxa em 1,25 ponto na reunião anterior. O fato é que, depois do IGP-10, parte do mercado que estava prevendo 0,75 ponto já migrou para 1 ponto. E quem defendia 0,50 ponto, passou a acreditar em 0,75 ponto. Duas das mais importantes consultorias do país, a AC & Pastore e a MB Associados, revisaram sua expectativa de corte para 0,75 pontos. E não só por causa do IGP-10.

" O balanço de riscos está mudando rapidamente: a desaceleração da economia é mais intensa e mais rápida, e a inflação está em queda. Diante deste quadro o mais provável é que o ciclo de redução da taxa Selic se inicie com uma queda de 75 pontos base em janeiro. Mas cresceu, também, a probabilidade de que o Copom possa optar por uma trajetória mais front-loaded, iniciando com um corte de 100 pontos-base na reunião de janeiro " , diz relatório da consultoria do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore. Em dezembro, a produção industrial brasileira pode ter caído entre 8% e 9% em relação a novembro, um mês que já tinha sofrido contração de 5,2%. O hiato da produção industrial alarga-se cada vez mais e derruba a inflação. Isso requer uma redução da taxa real de juros.

Desde a última reunião do Copom, há 40 dias, as expectativas de inflação medidas pelo Focus declinaram 0,36% ao ano, o que mostra que, segundo Pastore, uma redução da Selic de apenas 0,50 ponto produziria uma redução muito pequena da taxa real de juros, diante da magnitude da desaceleração da economia. " Na realidade, devido à queda nas taxas de inflação esperadas a taxa Selic real vem se elevando nas últimas semanas, seguindo uma trajetória contrária à dos swaps de juros de 360 dias " , diz a consultoria. Com a queda de ontem do swap, o juro real comparativamente ao IPCA previsto pelo Focus para o mesmo período, de 4,91%, cedeu de 6,34% para 6,23%. Em ambos os casos, os mais baixos da série histórica.

Para o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, depois do IGP-10 o BC pode ser mais ousado e diminuir a Selic em 0,75 ponto. " Se ele fizer isso não será por causa de atividade mais fraca. Se consideramos o período entre a última reunião e 20 de janeiro, não houve novidades em termos de desaceleração do nível de atividade. Já esperávamos um final e começo de ano com notícias bem ruins. O que veio de novidade foi o IGP-10, muito abaixo do que se poderia prever, ainda mais para quem esperava impacto do câmbio " , diz Vale. A atual recessão deve ser entendida de forma diferente das outras, pelo simples fato de que agora o mundo todo está em recessão e após uma alta muito expressiva dos preços mundiais. " Fica mais fácil devolver esses preços para baixo nessa situação e o IGP-10 é um reflexo disso " , diz Vale.

O dólar registrou ontem sua quarta alta consecutiva. A moeda vem se valorizando em sintonia com a piora na crise externa. Cresce a aversão a risco e os investidores vendem moedas de países emergentes. O dólar subiu ontem 1,44%, cotado a R$ 2,38. Na máxima do dia a moeda chegou a R$ 2,4030. O leilão de venda de dólares feito no mercado à vista pelo BC foi para valer. Colocou US$ 692 milhões. Só em janeiro já vendeu US$ 1,57 bilhão.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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